Brasília, 11 (AE) - O ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) Demósthenes Madureira de Pinho Neto disse na noite de hoje que a decisão de se passar para o regime de livre flutuação do câmbio foi tomada numa reunião no domingo à noite (17 de janeiro), da qual participaram ele próprio, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, o então secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Amaury Bier, o então presidente em exercício da instituição, Francisco Lopes, e a então chefe do Departamento de Operações das Reservas Internacionais, Maria do Socorro Carvalho. Pinho Neto disse também que a decisão de não intervir no mercado de câmbio foi tomada na sexta-feira, 15 de janeiro, entre 10 horas e 10h30. Disse ainda que no almoço de 14 de janeiro da equipe econômica com o presidente Fernando Henrique Cardoso, no Palácio da Alvorada, não foi discutida a liberação do câmbio. D O ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC disse que a equipe econômica estava monitorando a situação cambial e acreditava que "havia uma chance enorme" de a banda prevalecer (a banda diagonal-endógena).
O que se queria naquele momento, disse ele, era restituir-se a credibilidade internacional do País, necessária para a manutenção da banda. Pinho Neto disse que, naqueles dias, o ministro da Fazenda e o presidente Fernando Henrique Cardoso, assim como os demais integrantes da equipe econômica, estavam "24 horas por dia preocupados com a falência do País".
"Nós estivemos muito mais perto do abismo, da moratória
do que se possa imaginar." Ele disse que objetivo da reunião-almoço no Alvorada era "exclusivamente decidir o que seria feito com a política cambial". O motivo maior dessa reunião, segundo ele, era a possibilidade de quebradeira do País e não a quebra de dois bancos.
Pinho Neto disse aos senadores da CPI do Sistema Financeiro que "raciocínios precipitados" sobre prejuízos da operação de socorro do BC aos Bancos Marka e FonteCindam deveriam levar em conta a taxa de mercado naqueles dias da mudança cambial. Segundo ele, o BC vendeu dólares ao Marka a preços inferiores aos do teto da banda cambial, mas "acima da taxa do mercado futuro". Ele lembrou que, no dia da operação, o dólar estava em 1,25 real no mercado futuro, enquanto que os dólares vendidos ao Marka obedeceram à cotação de 1,275 real.
Pinho Neto observou ainda que a taxa cobrada ao FonteCindam - a 1,32 real - estava acima do teto da banda. Ele assegurou não ter participado do detalhamento nem da operação envolvendo o Marka nem daquela que beneficiou o FonteCindam. Participou, sim
da avaliação sobre existência de "risco sistêmico", que levou a diretoria colegiada do BC a aprovar a operação. O ex-diretor afirmou ter convicção de que a quebra de um banco naquele momento seria "um risco muito grande".

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