AE - Bem, pelo menos antes de chegar os torneios de grama, sua confiança está lá em cima, como você gosta de dizer. Por isso, talvez tenha então resolvido trazer toda a família para Roland Garros e fazer uma grande festa em família? Kuerten - Gosto de tê-los ao meu lado. Não acho que possam atrapalhar em nada, como alguns dizem. Atualmente estou em condições de arcar com despesas de viagem e há 3 ou 4 anos isso seria impossível. Todos gostam de ver o meu jogo e esta é uma oportunidade de minha mão ver o filho jogando, de minha avó também estar me assistindo e me incentivando. AE - Tem também um pouco de saudades de casa? Kuerten- É lógico. Afinal fico em casa só 3 ou 4 meses por ano, nada mais. E ter a família ao lado nestes torneios ajuda bastante a matar a saudade. AE - E a namorada também está em Paris. O coração agora parece que bate forte só para ela? Kuerten - A Vanessa também me incentiva bastante. Ela já esteve em outros torneios e agora está aqui. Vamos ver se meu coração é verdadeiro ou vagabundo e bate só para ela mesmo (risos). Bem, na verdade, nos damos muito bem e gosto de tê-la o meu lado e isso está me ajudando. AE - Como estão suas preferências por mulher. Você é mais Tiazinha ou Feiticeira? Kuerten - Gostaria de ter as duas. AE - Não vale, tem de escolher uma... Kuerten - Então a Feiticeiras, pois de repente ela faz um truque e traz também a Tiazinha (risos). AE - A Feiticeira também pode fazer alguma feitiçaria para ajudá-lo na conquista do título deste ano de Roland Garros? Kuerten - É verdade, mas acho mesmo que a minha gata (Vanessa Schultz) é mais forte e é ela quem vai me ajudar a conquistar o título. AE - Kuerten e o dinheiro, como está aplicando? Kuerten - Não me preocupo muito. Continuo com meu jeito simples. Meu irmão continua tomando conta de meus negócios e tudo está sendo bem administrado por gente competente. AE - Já está fazendo planos para o futuro, como casar ter filhos? Kuerten - Acho que ainda é um pouco cedo. Tenho de pensar na minha carreira. AE - E fora das quadras, está dando para aproveitar a fama e a fortuna? Kuerten - Não é nada tão grande assim. Gosto de coisas simples. De estar com meus amigos, fazer um churrasco e quando dá, estou de férias, ainda quero surfar. Quando não dá, jogar um futebol, quem sabe ver um jogo do Avaí, conversar e estar em Florianópolis. E como passo muito tempo fora de casa, viajando, gosto também de dormir na minha cama.Por Chiquinho Leite Moreira Paris, 21 (AE) - Agência Estado - O que é Roland Garros para você? Kuerten - É um torneio muito especial, mais do que qualquer um. Para mim, tem a maior importância. Foi aqui que eu apareci para o tênis. Tenhos lembranças incríveis, não dá para não ficar emocionado quando falo de Roland Garros. AE - Este ano você entra de maneira bem diferente no torneio. É um dos grandes favoritos, enquanto no ano passado, muitos duvidavam de sua capacidade, como vê esta competição, inclusive a possibilidade de vencer e tornar-se o novo número 1 do mundo? Kuerten - Como disse Roland Garros é especial. Já quando chego para treinar, sinto uma coisa diferente. Agora, este ano chego com a confiança lá em cima. Sei que não é qualquer um que pode entrar nesta competição e pensar como eu, de ter a chance de fazer uma boa campanha e, quem sabe, repetir o título. Hoje penso diferente. Sei que estou bem, sei que posso vencer e, se tudo der certo, posso fazer uma boa campanha, melhorar meu ranking. Chegar a número 1 é uma coisa que pode ficar um pouco mais para frente. AE - Você já está saturado desta pergunta, mas não dá para esquecê-la. O que mudou nestes dois anos, desde que ganhou Roland Garros em 1997? Kuerten - É verdade, esta é a pergunta da moda. No ano passado todos perguntavam se me sentia pressionado com a defesa do título, e agora o que mudou. Mas tem sentido. Muita coisa mudou realmente, especialmente na minha maneira de encarar certas situações. Acho que estou pronto para jogar o meu melhor tênis. AE - Tecnicamente o que há de novo? Kuerten - No tênis em sí, pouco mudou. Mas o meu comportamento na quadra hoje é outro. Antes, mesmo depois de ter vencido Roland Garros, pensava que não poderia ganhar de muita gente. Bastava errar uma ou duas bolas, para me enterrar e perder jogos fáceis. Agora não. Aprendi a controlar estas coisas. Estou mais calmo, pois coloquei na cabeça que posso vencer qualquer um. E, sem exageros, acredito nisso mesmo. Até se estou perdendo um jogo, procuro ficar de cabeça em pé, mostrar que estou aí, pronto para reagir e que posso ganhar. O cara do outro lado, me olha mais maior respeito. AE - Ninguém mais te assusta no tênis? Kuerten - Assustar não é bem o termo. Tem jogadores que estão jogando muito bem e sei que tenho dificuldades para vencê-los. Lembra no Carlos (Moya). Ganhei várias vezes dele, e chegou em Hamburgo acabei perdendo em dois sets. Fiquei muito bravo comigo depois dàquela partida. Mas logo passou a bronca. AE - O Moya é então o teu maior inimigo dentro das quadras? Kuerten - É um adversário sempre muito difícil, mas acho que o Rios, um cara muito perigoso, assim como Mantilla e o Corretja. Os espanhóis sempre dificultam. Ah! Não dá para esquecer nunca do Agassi. É sempre perigoso enfrentá-lo. AE - Quer dizer que esta é sua lista de favoritos para Roland Garros? Kuerten - Não é bem assim. Um torneio como Roland Garros é muito fácil você ter um tropeço. Não dá para falar em quem vai ganhar. Acho que tenho condições, como estes outros jogadores que falei também têm,mas é preciso ter cuidado. AE - O "tropeço" pode vir de jogadores como Marat Safin, Nicolas Escude e outros asas negras em sua vida? Kuerten - Tem jogadores que não consigo encontar a maneira certa de enfrentá-los. Alguns, como o Safin, apressam muito os pontos, não lhe dão tempo para pensar. Mas, acho que de repente, na época em que enfrentei estes jogadores não estava num bom momento. Acho que hoje seria diferente. AE - Qual é o segredo, então? Kuerten - Amadureci. Tinha 20 ou 21 anos e não sabia como sair de situações difíceis. Tenho muito ainda a aprender, mas já estou bem mais esperto. AE - Quer dizer que antes não era assim... tão esperto? Kuerten - Tem muita gente que me criticou, queriam que buscasse outro treinador, encontrasse novas fórmulas. Mas sabia que era uma questão de tempo de acreditar no meu trabalho. Não sei o que aconteceu. Sei apenas que estou mais maduro, mais tranquilo e precisei apenas de tempo para encontrar a maneira certa de jogar e de me comportar na quadra. AE - É lógico que seu técnico Larri Passos participou muito dessa mudança. Ele tem um gênio difícil, complicado, mas vocês provaram que a parceria é de sucesso. Já estão juntos há muito tempo, por isso, guardadas as devidas proporções, considera o Larri como um pai para você? Kuerten - Nosso relacionamento é mais do que o de um tenista diante de um técnico. Estamos juntos há muito tempo, preciso dele quase sempre ao meu lado, por isso, sabia que tinha de insistir em nosso trabalho. Tenho certeza que o Larri também ganhou respeito. Inclusive internacionalmente é reconhecido como um dos melhores treinadores do mundo. No Brasil estão acreditando em sua competência e devo muito a ele. AE - Os resultados dessa parceria, sem dúvida, estão aparecendo. Mas o que está faltando para melhorar ainda mais? Kuerten - Acho que está faltando ganhar um jogo em Wimbledon (Kuerten jamais ganhou uma partida em quadras de grama). Meu objetivo este ano é ganhar um jogo na grama.

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