Paris, 02 (AE) - A França torna-se pioneira no que diz respeito à "pílula do dia seguinte". Até então, ela era o único país do mundo no qual essa pílula é vendida livremente (a NorLevo, que é preciso tomar 24 horas depois de uma relação sexual). Foi dado um passo novo: a partir de agora, esse contraceptivo de emergência será distribuído nas escolas e nos liceus, pelas enfermeiras, às adolescentes em perigo.
Por que essa facilidade que parecia um sacrilégio há vinte anos? A vida sexual começa cada vez mais cedo, e o balanço das gravidezes de adolescentes é bem pesado: anualmente, 10 mil gravidezes indesejadas entre adolescentes, das quais 6 700 fazem aborto com menos de 18 anos.
Os desgastes psicológicos são terríveis.
O surpreendente é que as pílulas do dia seguinte são vendidas sem retrições em qualquer farmácia. Mas as jovens a ignoram. E como elas não conversam sobre isso com suas mães, somente encontram assistência entre as "companheiras", tão mal informadas quanto elas. A enfermeira do liceu parece ser o interlocutor ideal para orientá- las, escutar sua dor, fornecer-lhes a pílula.
Essa falta de informação surpreende: as fotografias, os filmes, as revistas, as conversas evoluíram, nos últimos 20 anos, no sentido de uma grande transparência. Além disso, todas as escolas dão aulas de educação sexual.
Infelizmente, essas "aulas" são muito mal interpretadas. São aulas abstratas que elas avaliam mal sua relação com a realidade. Além disso, é uma matéria de liceu instintivamente rejeitada por alguns. "As primeiras da classe podem fazer amor sem risco", ludibria um professor.
"Mas as últimas, as preguiçosas estão expostas ao perigo, pois jamais aprendem suas lições de sexologia!" O resultado é deplorável. Em um liceu, três jovens de uma mesma classe grávidas no mesmo ano. Em outro liceu parisiense, um recorde: em um único trimestre, 16 alunas fizeram aborto (talvez um caso particular? Talvez um Don Juan especialmente inábil despedace corações no liceu?) E, de qualquer maneira, uma gravidez de adolescente é um drama: a adolescente é massacrada por longos anos.
E ainda assim, as "francesas" são sábias se a comparamos com as "inglesinhas". Estas são as mais vivas (ou as mais bestas?) do mundo.
Todo ano, 94 mil "teenagers" ficam grávidas, das quais 9 mil têm menos do que 16 anos. 2 200 garotas com menos de 14 anos tornam-se mães anualmente. E os poderes públicos, que continuam puritanos apesar da libertinagem das jovens, limitam-se a dizer, como Tony Blair: "Estou convencido de que as adolecentes não deveriam iniciar sua vida sexual antes dos 16 anos".
Na França, a decisão de distribuir a pílula do dia seguinte provocou querelas: médicos, enfermeiras, socialistas aplaudem. A Igreja e a direita espumam: "Uma hipocrisia cruel", escreve o "Osservatore romano", e os bispos condenam.
Entende-se a ira da Igreja. O perigo é que as jovens, baseando-se nesse "filete de proteção" entreguem-se a uma atividade cada vez mais intensa. Sobretudo, que a maior parte dessa relações sexuais muito jovens explicam-se menos pelo desejo da garota do que por outros motivos: de um lado, é a pressão do grupo de idade, a "companheira" evoluída que olha as "garotas sábias" com ar de superioridade. Por outro lado, é a insistência insuportável dos rapazes que perseguem as garotas ingênuas.
Ora, um dos únicos argumentos que elas podem evocar junto aos rapazes é o medo de uma gravidez. Com a pílula do dia seguinte, esse argumento corre o risco de cair.
Por isso o papel das enfermeiras será determinante. Elas não devem deixar pensar que apenas a pílula é soberana e que é tomada como um comprimido para dor de cabeça. Devem explicar a gravidade do ato. A pílula do dia seguinte não é uma panacéia anódina: a verdadeira solução continua a ser a prevenção: pílula antes e preservativos.

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