Manaus- O espaço aéreo da Amazônia tem ''inúmeros buracos negros'', espaços de até 150 quilômetros, ou cerca de 100 milhas náuticas, em que aeronaves podem ficar invisíveis aos radares, distância que varia de acordo com a localização de cada Unidade de Vigilância (UVs) ou antenas. A informação é do piloto e instrutor de aviação há 12 anos, Aurélio Régis, de 36 anos, com 4,5 mil horas de vôo sobre a região amazônica. ''Lá a aviação já foi mais perigosa do que é hoje, antes do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) ter espalhado antenas por toda a região. Porém ainda há muita exigência da atenção do piloto e das torres por conta desses 'buracos negros', quando alguma antena não alcança o limite da outra por um breve período'', disse.
A explicação de Régis é que, se alguma UV da jurisdição de um centro de controle de área (torre) falhar, fazendo a aeronave entrar num desses 'buracos negros', haverá um plot intermitente no radar da torre, um ponto que aparece e desaparece, um ''alvo falso'', dando uma indicação incorreta de altimetria (altitude) do avião. ''Esses plots nos radares também surgem quando o transponder de uma aeronave está desligado, não só quando entram em 'buracos negros'', explica. ''Daí, na hipótese de uma aeronave estar com o transponder desligado, ela não é visível pelas torres de controle ou pelo TCA (sistema de alerta anti-colisão) da aeronave que estiver voando próximo''.
De acordo com Régis, contudo, há radares de algumas torres, especialmente na área de fronteira da Amazônia, onde cruzam os ares os aviões com tráfico de drogas, que detectam aeronaves mesmo com o transponder desligado. O piloto não quis opinar sobre qual das duas possibilidades seria a mais aceitável no caso do acidente com o Boeing e o Legacy na última sexta-feira. Disse, contudo, que havia três rotas possíveis naquela área do acidente para o avião da Gol, a UZ6, a UA315 e a UW9. Para o Legacy, a UZ6 ou a UA317. ''A rota que se confunde para os dois é a UZ6, mas os dois aviões tomavam rumos opostos e, portanto, no caso o Legacy, voaria em altitudes pares como, por exemplo, 30 mil pés, e o Boeing em altitudes ímpares, como 35, 37 mil pés''.
Segundo Régis a expressão 'buraco negro', da perda da onda eletromagnética pelos radares dependendo do ângulo da aeronave, pode ser substituída por 'zona morta', mas não por 'cone de silêncio'. ''Os cones de silêncio são espaços de não identificação de sinal rádio-navegação, nas frequências NDB e VOR.''
Uma fonte que trabalha no sistema de controle de vôo do Destacamento de Tráfego e Controle Aéreo do Aeroporto Eduardo Gomes (Detecea-EG) afirmou que ninguém pediu afastamento da torre de Manaus, mas sim um colega que trabalhava no dia do acidente em Brasília.Ainda segundo a fonte, não há indícios de que o piloto do Legacy estivesse fazendo acrobacias no ar e, por isso, estaria com o transponder desligado. ''Não faz sentido, não precisa desligar o transponder (para acrobacias), não é obrigatório, mas ele teria de ter informado à torre. Insisto que ele não entrou num 'buraco negro' e que o problema não foi nas torres, mas que ele deve ter desligado o transponder para ter mais altitude, alcançar mais velocidade e, assim, economizar combustível''.

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