O desmatamento na Amazônia teve um grande pico no ano de 1995. Este foi o maior susto das autoridades ao tomar conhecimento dos resultados do estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com imagens de satélite feitas em 95, 96 e 97, divulgadas ontem em Campinas. A taxa anual de desmatamento voltou a cair em 1996 e, nas projeções de 1997, restabeleceu o patamar médio, observado no fim dos anos 80 e início desta década. Ou seja, em torno de 13 a 14 mil quilômetros quadrados de derrubadas por ano.
O grande aumento de 95 obrigou o Inpe a checar novamente a contagem e atrasou ainda mais a divulgação dos números, finalmente marcada para esta segunda-feira. A pedido do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o estudo agora concluído apresenta novidades, que permitirão identificar as causas deste grande aumento e apontar na direção de medidas a serem tomadas.
‘‘Transformamos os dados em informações que dão às autoridades a possibilidade de intervir’’, explicou Márcio Nogueira Barbosa, diretor do Inpe. ‘‘Neste momento, nem o governo sabe por que aumentou o desmatamento e é o detalhamento das causas que vai permitir uma intervenção mais acertada’’. Entre as hipóteses prováveis para o grande aumento estaria a disponibilidade de capital para investimento agrícola, como consequência do Plano Real.
Além de fazer o levantamento das áreas derrubadas por Estado, o Inpe, classificou as áreas desmatadas pelo tamanho dos talhões cortados e cruzou os dados do satélite com os mapas de vegetação do projeto Radam, para saber qual a fisionomia florestal está sendo mais desmatada e qual o perfil dos maiores responsáveis pelo desmatamento. Um dos resultados aponta para um grande número de pequenos desmatamentos na floresta ombrófila densa, a que mais preocupa os defensores da biodiversidade e os responsáveis pelo controle de emissão dos gases do efeito estufa. A floresta densa é a fisionomia vegetal com maior concentração de carbono por área e a que emite mais gases do efeito estufa, quando derrubada e depois queimada.
O fato de haver um grande número de pequenos desmatamentos leva a supor que os maiores culpados são os pequenos produtores, porém esta é uma conclusão precipitada. Reportagens anteriores da Agência Estado, sobre novas áreas desmatadas na divisa do Acre com o Amazonas, demonstraram que grandes fazendeiros estavam se associando a madeireiros para cortar as florestas de suas propriedades em ‘‘doses homeopáticas’’, como forma de burlar a necessidade de plano de manejo e autorização de corte.
‘‘Uma das medidas que vamos tomar será a investigação das causas do incremento no desmatamento em 12 localidades da Amazônia, onde vamos entrevistar pelo menos 1.200 produtores rurais e analisar cerca de 30 parâmetros’’, disse à AE o presidente do Ibama, Eduardo Martins. Ele admite que, desde os primeiros levantamentos, há 10 anos, o governo não sabe como utilizar os dados do satélite, mas se diz disposto a não mais engavetar estas informações e usá-las para nortear a fiscalização e a adoção de medidas.
Martins assegurou, ainda, que, desta vez, não anunciará decretos ou medidas provisórias. Todas as propostas de ação passarão pelo Congresso, na forma de projetos de lei. Ele pretende reafirmar a intenção de preservar 10% da Amazônia Legal em unidades de conservação, implantadas até o ano 2.000.
O estudo do Inpe consumiu US$ 2,5 milhões do Tesouro Nacional, sem considerar o custo das imagens de satélite (mais US$ 800 mil), e envolveu o trabalho de 143 técnicos. Originalmente seriam apresentados apenas os resultados de 95 e 96, mas o Inpe decidiu fazer também uma projeção para 1997, devido às especulações sobre o aumento da taxa de desmatamento no ano passado, motivadas pelo grande número de queimadas, ocorridas nesta estação seca. O monitoramento de queimadas não dá um retrato fiel das áreas desmatadas, mas fornece indícios, uma vez que o fogo costuma se propagar apenas em floresta derrubada, na Amazônia.
Na projeção de 1997, segundo o diretor do Inpe, foram utilizadas 47 imagens correspondentes às áreas de maior incremento do desmate nos anos de 1995 e 1996. Essas 47 imagens refletem cerca de 75% do desmatamento total, por isso o Inpe acredita ser uma projeção segura. O estudo completo de 1997 deverá ser concluído no início do segundo semestre, ainda este ano.

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