Pichadores são presos por desacato a autoridade em SP
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2000
Por Uilson Paiva 
São Paulo, 11 (AE) - Dez policiais militares em dois veículos. Três guardas-civis metropolitanos em motocicletas. Exatamente três pichadores - em lugar da multidão de adolescentes que escolheu o lugar como ponto de encontro -, dois deles detidos por desacato a autoridade. Foi uma das sextas-feiras mais atípicas - e seguras - dos últimos tempos na Ladeira da Memória, no Anhangabaú, centro.
Depois de o jornal "O Estado de S.Paulo" ter revelado o ponto de reunião semanal de quase 300 pichadores, a Prefeitura e o governo do Estado determinaram o envio de reforço policial ao local. A medida surtiu o efeito previsível de afastar os pichadores, mas não se sabe até quando. Até mesmo os PMs e guardas-civis duvidam que a vigilância irá continuar.
A quantidade de policiais na Ladeira não inspirou confiança aos que passavam pelo local nem aos comerciantes da região. "Estão aí hoje, não sei por quê", desdenhava o analista financeiro Jefferson Simonetti, de 29 anos. "Vêm e nunca ficam". A ausência dos pichadores agradou o camelô Anderson Araújo, de 26 anos, que vende passes de metrô. Pela primeira vez, ele viu a Ladeira sem pichadores numa sexta-feira. "Se a polícia continuar em cima, eles não vêm mais", disse. "Isso é um monumento histórico, que merece ser reativado".
Manos - A presença da polícia não impediu completamente a presença de pichadores. Alguns passaram para conferir se os policiais estavam mesmo lá e avaliaram a situação. "É, não vai dar mais pra reunir porque a polícia colou", disse M.K.S., de 19 anos, da gangue Escopeta. Ele concordou que os monumentos serão pichados de novo depois de limpos, se não forem vigiados. "Aqui, os manos se reúnem e picham o nome para ter mais ibope"
explicou.
A busca de "ibope" levou à detenção dos pichadores Rick, de 15 anos, da gangue Rajadas, e de R.F.L., de 16 anos, da gangue Pavilhão. Exibicionistas, ao observar a reportagem, quiseram falar. "à, avisa aí no jornal que a reunião vai continuar", disse R. "Semana que vem, a gente vai colar aqui e trombar com eles". Entusiasmado, prosseguiu o discurso: "Já teve várias treta, tomamos vários couro, mas pode saber que só vamos parar até que a morte nos separe".
Sem latas de tinta e "com os documentos", os dois não seriam parados não fosse a insistência em exibir-se. "Vou tirar uma onda deles", falou R. a Rick, referindo-se aos Pms. Quando já se haviam afastado e subiam as escadarias da Ladeira da Memória, R. jogou com toda a força o skate que carregava no chão. Com o estrondo, os PMs, a poucos metros, abordaram os dois para uma revista. Desacato - Provocativo, mesmo encostado na parede, R. mostrava sua jaqueta com as letras góticas de sua gangue aos pedestres e aos policiais. "Pode revistar que tô limpo", dizia. "Vocês não me catam nunca; quando picho, não me catam; eu escorrego". Tanto falou que foi detido por desacato. O amigo foi junto.
Segundo o sargento Rogério Silveira Lopes, da 2.ª Companhia do 7.º Batalhão da Polícia Militar, o reforço do policiamento na Ladeira vai continuar até que haja uma ordem contrária. Por ordem do prefeito Celso Pitta (PTN), a Guarda Civil Metropolitana também faz vigilância 24 horas dos monumentos. "Se não deixarem os guardas, o sossego não dura nem uma semana", disse o aposentado José Ferreira, de 46 anos.
Olhando para os patrimônios históricos quase irreconhecíveis debaixo das pichações, Ferreira admirava-se. "Tem gente que diz que é arte, né?", perguntava. "Pois eu não vejo nada de cultura, só lixo, sujeira". Patrimônio - Ao mesmo tempo em que aumentou a vigilância, a Prefeitura anunciou a restauração completa e a limpeza das pichações de dois patrimônios históricos da cidade que estão na Ladeira: o obelisco da Memória, de 1818 - o monumento mais antigo da cidade -, e o painel de azulejos, de 1922, comemorativo do centenário da Independência.
Se a vigilância não permanecer, porém, os técnicos do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da própria Prefeitura temem que a restauração sirva apenas para abreviar a vida útil dos monumentos - e, obviamente, desperdiçar recursos. Os técnicos advertem que, se os monumentos forem pichados de novo, as reformas e intervenções sucessivas agredirão as obras mais do que as pichações.


