Pichadores mantêm reunião e dizem que deixarão ladeira no centro
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2000
Por Marisa Folgato 
São Paulo, 25 (AE)- Pelo menos 30 pichadores voltaram a reunir-se, na tarde de hoje, nas imediações da Ladeira da Memória, centro. Mas já não ocupavam as escadarias ou a área em volta do obelisco. Ficaram em grupinhos encostados no muro da Rua Xavier de Toledo, com ampla visão do antigo palco de pichações, agora em processo de limpeza, sempre atentos ao menor movimento dos dois guardas-civis metropolitanos encarregados de vigiar o local.
Segundo alguns deles, sexta-feira ainda vai continuar sendo o dia tradicional de encontro dos pichadores. Mas o ponto deve mudar. "A polícia tá embaçando muito na ladeira", disse Celo, do grupo Infernais, descendo as escadarias agitando uma latinha de cerveja como quem balança uma lata de tinta spray só para provocar. "A gente muda e pronto", afirmou o office-boy, visivelmente chateado por perder o ponto que frequenta desde os 12 anos (agora tem 18).
Ele garantiu que não pretende pôr sua grife de novo nos monumentos da Ladeira da Memória. "Vão ficar limpando toda hora e vai perder a graça", avaliou. "Picho pela adrenalina."
A importância da reunião? Contar vantagem de pichações feitas e comentar os "atrevimentos" alheios. "Tá vendo aquele picho branco em cima do preto? O cara atropelou o picho do outro (escreveu por cima) e isso é provocação", explicou Klé, de 18 anos, do grupo Sóboys.
Segundo Klé, os pichadores têm preferido usar tinta com rolo de 5 centímetros. "O spray é difícil de sair da pele e da camisa", disse o rapaz, que já foi pichado pela polícia quando colocava sua marca num prédio. "A gente picha pra mostrar pro governo que a segurança é fraca."
Para Gost (sem h mesmo), do Arsenal, pichar também é um protesto. "É uma revolta, porque ninguém deixa a gente fazer nada - nem essa reunião; é nossa revolução", disse o vendedor de alho de 17 anos. Costuma agir com o irmão, Alvo, de 15, e garante que não gostaria de ver sua casa pichada. "A não ser que fosse alguém de ibope, alguém poderoso no picho." Gost já caiu do teto de um posto de combustível quando pichava de cabeça para baixo e assustou-se com um colega. "Sorte que foi em cima de um monte de areia e de pedras."
Bi, do Bixo Idulos, levou três tiros de policiais, há três meses, quando descia do telhado de um prédio pequeno, mas não pensa em largar as tintas. Aos 18 anos, em liberdade assistida pela Febem, disse que a Ladeira da Memória não está a salvo dos ataques. "Não dou um mês para estar pichada de novo."
Limpeza - O fim da limpeza dos Monumentos da Ladeira da Memória deve atrasar entre 15 e 20 dias, segundo o diretor-superintendente da Engelimpe, Flávio Calazans de Freitas. "Estava previsto para 20 dias, mas vai chegar a 35 ou 40, porque estamos cuidando também dos muros de arrimo e a extensão aumentou." Segundo ele, os funcionários não estão mais recebendo ameaças dos pichadores. Isso foi confirmado por operadores que aplicavam jatos de águas nas paredes hoje.Conforme o diretor, na segunda, deve começar o restauro do painel de azulejos.


