Santiago, 02 (AE) - A economia chilena deve encolher em 99, depois de exibir altas taxas de crescimento ao longo da década. As estimativas dos analistas de instituições privadas e das universidades oscilam entre uma queda de 0,7% a 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB). As estimativas do Banco Central chileno são de estabilidade no PIB deste ano - mesmo assim o pior resultado da década para o Chile, que cresceu entre 1991 e 1998 a uma taxa média de 7% ao ano.
A instabilidade no Chile provocada pela crise asiática e desvalorização brasileira quebraram a tradição no país de maior resistência aos choques externos. O Chile foi um dos primeiros países na América Latina a adotar as reformas liberais.
Mas a receita de reformas, estabilidade, forte abertura econômica e restrição a entradas de capitais de curto prazo, que deu certo durante a crise mexicana, não funcionou desta vez. A crise asiática e a desvalorização no Brasil golpearam duramente a economia e seu impacto foi agravado, segundo diversos analistas, por erros de política econômica e atrasos na reação à crise por parte das autoridades.
De qualquer forma, analistas afirmam que a recuperação da economia será mais rápida no Chile do que em outros países da América Latina, como Argentina e Brasil, e já no ano que vem, o país pode ter taxa de crescimento de cerca de 5%.
Para o ex-ministro e atual consultor Enrique Correa, a idéia era de que o Chile era invulnerável aos choques externos, "mas a crise demonstrou que ninguém é invulnerável".
O primeiro impacto sobre o Chile ocorreu com a queda das exportações para a ásia, ainda entre o fim de 97 e o início de 98. O Chile concentrava 30% de suas exportações para a região, principalmente suas vendas de cobre (principal produto de exportação até hoje, representando cerca de 40% do valor total das vendas ao exterior).
A situação foi agravada pela retração econômica brasileira e pela desvalorização do real, que diminuiu também as exportações para o país (o Brasil é o quarto maior importador de produtos chilenos), e somou-se à queda dos preços internacionais de commodities. Há dois meses, em setembro, o Chile extinguiu a banda de flutuação cambial, depois de tê-la elevado e alargado diversas vezes. Deixou o mercado de câmbio livre, e recentemente o dólar atingiu cotações históricas de alta, em torno de 550 pesos.
Analistas afirmam que o governo custou para reagir, demorando muito para deixar a moeda flutuar e aumentando muito as taxas de juros.
Ao longo do ano passado, por falta de liquidez no mercado financeiro, as taxas de juros chegaram a ultrapassar 100% por alguns períodos, com interrupção temporária das linhas de crédito, que costumam ser fartas no Chile. Hoje as taxas já estão normalizadas para os patamares chilenos - o juro máximo para operações de crédito em moeda estável está em torno de 11% ao ano. Mas os períodos de instabilidade causaram insegurança entre os empresários, forte redução do investimento, alta na taxa de desemprego e forte queda na produção industrial.
Os primeiros sinais de recuperação vieram em setembro, com elevação do índice de produção industrial e uma queda muito pequena no desemprego. Mas a melhora da economia no último trimestre não deve ser suficiente para compensar as fortes perdas do início do ano.
Para o economista Guillermo Patillo, da Universidade de Santiago, a economia chilena deve fechar o ano com queda de 0,4% do PIB. Franco Parisi, da Universidade do Chile, prevê retração de 0,5% ou, na melhor das hipóteses, crescimento zero. As estimativas mais pessimistas, de setores do mercado financeiro, são de queda de até 0,7% do PIB.
Entre os analistas chilenos, há consenso de que a principal causa do choque foi externa, mas que a ação do Banco Central contribuiu para acentuar a crise, aliada a uma descoordenação entre o BC e o ministério da Fazenda. No Chile, o BC é independente do governo. "Se o governo tivesse cortado os gastos a tempo, e tivesse havido mais transparência nas relações entre Fazenda e Banco Central, talvez não fosse necessário passar por uma recessão", diz o consultor Enrique Correa. Para o diretor do Centro de Estudos de Políticas Públicas da Universidade do Chile, Osvaldo Sunkel, "erros de política econômica" acentuaram a retração.

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