PFL denuncia manobra do PSDB e cobra reação de FHC
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2000
Por Gerson Camarotti, Isabel Braga e Nelson Breve 
Brasília, 16 (AE) - O presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), foi tomar hoje satisfações do presidente Fernando Henrique Cardoso sobre as manobras feitas pelo PSDB para se tornar a primeira bancada da Câmara, empurrando o PFL para a terceira posição. Bornhausen cobrou resposta aos rumores de que os tucanos teriam oferecido cargos e espaço político no governo para atrair deputados de outros partidos. "O governo poderá sofrer consequências com as possíveis comprovações de barganha feitas pelos tucanos", ameaçou. "Se manobras duvidosas dessa natureza forem confirmadas e expostas posteriormente, irão trazer graves prejuízos a imagem do Executivo", alertou, referindo-se à criação do bloco PSDB-PTB e do crescimento real da bancada tucana com deputados ligados à Igreja Universal do Reino de Deus.
Segundo o senador, a ação do PSDB deixou a base do governo no Congresso enfraquecida. "Isso terá consequências dependendo do que for feito", observou o líder pefelista, sem esconder a irritação com a manobra tucana. "Afinal, é muito ruim quando surge desconfiança numa aliança."
A resposta do PFL ao PSDB começou cedo. Depois de conversar por telefone com o líder do partido, deputado Inocêncio Oliveira (PE), Bornhausen resolveu ir ao Palácio do Jaburu para acertar com o vice-presidente Marco Maciel a ofensiva pefelista. Na hora do almoço, os dois seguiram para o Palácio da Alvorada, onde conversaram com Fernando Henrique durante uma hora e meia. "O presidente me garantiu que não teve nenhuma participação no processo e, se alguma compensação foi oferecida, em nome do governo, ela não será cumprida", disse o senador.
Bornhausen classificou a ação tucana como uma manobra feita no apagar das luzes, cheia de dúvidas e desconfianças, e "com um cheiro não muito agradável de imoralidade". Ele chegou a citar nominalmente os deputados ligados à Igreja Universal que foram para o PSDB, colocando sob suspeita as reais intenções da aliança entre os tucanos com o que chamou de "seita religiosa". O pefelista chegou a sugerir como efeito de compensação para corrigir a ganância tucana a preservação das comissões, tais como elas estão atualmente.
Segundo Bornhausen, isso poderia ser feito por meio de uma mudança no regimento, adaptando-o ao do Senado, que dá um mandato de dois anos para as comissões. Mas, o próprio senador acha difícil a aprovação dessa proposta, depois que o líder Inocêncio não se mostrou disposto em levar adiante a discussão na Câmara. Magoado com o resultado do troca-troca partidário do dia anterior, Inocêncio evitou falar. "Estou zen; o fato é sagrado e a análise é de vocês", disse, de forma enigmática e demonstrando estar abalado com o episódio.
Inocêncio foi chamado no final da tarde pelo presidente Fernando Henrique, que tentou isentar o governo de qualquer participação no episódio. O deputado foi lacônico ao voltar para a Câmara. "Eu sou candidatíssimo", garantiu o líder, sobre a sua pretensão de ser candidato a presidência da Câmara no próximo ano.
Na tribuna da Câmara, o líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), rebateu as denúncias de que o governo teria barganhado com deputados para que entrassem no PSDB. Ele negou que o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, tenha oferecido para o deputado Magno Malta (PTB-ES) uma concessão de rádio para a formação do bloco dos dois partidos. "O governo Fernando Henrique acabou com a dinâmica de concessões e outorga de emissoras por critérios políticos", ressaltou, exaltado.
Publicidade - Virgílio também negou um favorecimento da Receita Federal, que teria anistiado parte das dívidas da Igreja Universal do Reino de Deus. "A decisão foi do conselho de contribuintes, que não é parte integrante da Receita Federal", esclareceu. Sobre a denúncia feita por pefelistas de que a TV Record - empresa da Universal - iria receber R$ 3 milhões mensais em verbas de publicidade do governo, Virgílio foi incisivo. Ele enviou um requerimento ao ministro Andrea Matarazzo (Secretaria de Comunicação) pedindo o envio mensal dos gastos do governo com publicidade. "Se alguém tiver alguma coisa grave, traga; o que não pode haver são insinuações", rebateu.
O representante da Universal na Câmara, deputado Bispo Rodrigues (PL-RJ), também revidou as acusações. "A TV Record recebe uma verba menor do que a TV Bandeirantes e a TV Manchete (Rede TV), apesar de ter uma audiência muito maior", atacou Rodrigues, que depois acusou a Rede Globo de está pleiteando do governo R$ 1 milhão em publicidade por dia. Ou seja, mais da metade do que os R$ 650 milhões que o Executivo deverá gastar esse ano em propaganda.
Surpresa - No Planalto a ordem foi amenizar o clima na base aliada. O líder do governo na Câmara, deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP), garantia que foi surpreendido com a manobra do seu próprio partido. "Acho que o bloco foi uma coisa muito grave para a manutenção da harmonia política no Congresso", criticou.
Já o líder do PSDB, deputado Aécio Neves (PSDB-MG), sinalizou com um possível entendimento na distribuição dos principais cargos nas comissões para não atrapalhar o equilíbrio dos aliados na Câmara. "Não haverá nenhuma ação que busque reduzir o espaço dos aliados", comentou Aécio. "O desconforto inicial será superado; afinal, o PFL é vital para a base de apoio ao governo", completou ele, garantindo que o governo não participou da ação tucana para aumentar a bancada.


