PF vai investigar fraude em tentativa de suicídio de Gerardo
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domingo, 28 de novembro de 1999
Por Nelson Breve 
Brasília, 28 (AE) - A Polícia Federal vai investigar se a tentativa de suicídio do ex-deputado José Gerardo de Abreu, cassado este mês pela Assembléia Legislativa do Maranhão e acusado pela CPI do Narcotráfico de comandar o crime organizado naquele Estado, foi ou não uma farsa para tentar evitar sua prisão e transferência de Brasília para São Luís, onde responderá inquérito por suposto envolvimento em vários assassinatos.
O chefe da Delegacia de Entorpecentes, delegado Rodney Miranda, e o sub-procurador da República José Roberto Santoro, consideram suspeito o procedimento do médico Heverton de Campos Menezes, que atendeu Gerardo por solicitação do advogado Pedro Calmon. Menezes internou o deputado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospítal Brasília na noite de sexta-feira alegando que ele estava em estado "gravíssimo" por ter ingerido uma overdose de tranquilizantes. Na manhã seguinte, no entanto, o paciente apresentava um quadro clínico quase normal.
Miranda disse que poderá fazer uma investigação conjunta com o Conselho Federal de Medicina e também levará em consideração a apuração que está sendo feita por uma comissão de sindicância interna do Hospital. Ainda não há informações sobre os exames feitos para identificar a dosagem dos medicamentos que teriam sido ingeridos pelo ex-deputado.
O delegado não antecipou julgamento, mas estranhou alguns fatos, como a ausência do médico e do advogado no momento em que Gerardo teve alta da UTI e foi levado para um apartamento do Hospital, onde recebeu voz de prisão. Os dois só reapareceram depois que o presidente interino do Tribunal Regional Federal da Primeira Região, Fernando Tourinho Neto, negou a liminar do pedido de habeas corpus para evitar a prisão do deputado cassado.
A ação do médico que mais irritou a Polícia Federal, no entanto, foi a forte sedação aplicada em Gerardo depois que ele já estava quase pronto para ter alta e ser transferido para a Superintendência da Polícia Federal. Menezes alegou que durante a avaliação clínica, o ex-deputado teve uma crise nervosa e ficou muito agitado, o que motivou a aplicação de tranquilizante.
Esses procedimentos fizeram com que o Ministério Público obtivesse autorização judicial para que uma equipe do próprio Hospital fizesse a avaliação clínica e se responsabilizasse pela alta médica do paciente. A Justiça também determinou que a direção do Hospital se responsabilizasse pela guarda do prontuário completo da internação de Gerardo.
Os advogados do ex-deputado afirmaram hoje que vão interpelar criminalmente o delegado e a direção do Hospital para que confirmem em juízo afirmações sobre o suposto forjamento da tentativa de suicídio. "Temos oito testemunhas que presenciaram a cena", afirmou o advogado Mário Gilberto de Oliveira.
Gerardo saiu do Hospital por volta da meia-noite de sábado. Ele passou a madrugada na Superintendência da Polícia Federal e embarcou hoje às 11h22 para São Luís, escoltado por dois delegados da polícia civil do Maranhão. O ex-deputado saiu algemado da PF, sob forte esquema de segurança, repetindo várias vezes: "sou inocente, sou inocente". Ele também foi acompanhado pelo advogado Pedro Calmon, que nesta semana deve entrar com mais dois pedidos de habeas corpus na Justiça do Maranhão.
Os advogados de Gerardo querem apressar a fase de instrução do processo e tentar transferi-lo para Brasília. "Vamos pedir que a Justiça Federal reconsidere nosso pedido para que ele não fique preso no Maranhão", adiantou Oliveira, alegando que seu cliente corre risco de vida naquele Estado. O advogado acredita que Gerardo estará em liberdade até 20 de dezembro. Caso não obtenha sucesso na Justiça do Maranhão, ele recorrerá ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal.


