Uma operação da PF (Polícia Federal) para desmantelar o orçamento do PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa de São Paulo, mobilizou 180 agentes no cumprimento de 55 mandados de busca e apreensão e 26 de prisão em sete Estados na manhã desta terça-feira (6). Duas prisões foram feitas em flagrante. Computadores, pen-drives, HDs, documentos e pequenas quantidades de drogas foram apreendidas e duas pessoas foram presas em flagrante. Só no Paraná, 11 cidades foram alvo das ordens da Operação Cravada. A PF de Londrina cumpriu mandados de busca e prisão no município, em Centenário do Sul e Arapongas, ambos na região metropolitana. Uma pessoa foi presa em Londrina e outras duas em Arapongas.

Coletiva de imprensa da Polícia Federal em Curitiba, sobre investigação do núcleo financeiro do PCC
Coletiva de imprensa da Polícia Federal em Curitiba, sobre investigação do núcleo financeiro do PCC | Foto: Eduardo Matysiak/Futura Press/Estadão Conteúdo

O capital de giro das contas bancárias era de R$ 800 mil a R$ 1 milhão por mês, segundo a PF, que bloqueou 400 contas investigadas. O dinheiro seria usado na gestão de crimes pelo País e na aquisição de drogas e armas. Mandados partiram da Vara Criminal de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, já que a investigação começou após informações da existência de um núcleo financeiro do PCC dentro da PEP 1 (Penitenciária Estadual de Piraquara), em fevereiro.

O delegado Martin Bottaro Purper, coordenador da operação, explicou que os criminosos arrecadavam valores de “comparsas” por meio de rifas cobradas de dois em dois meses. A mensalidade chegava aos líderes como se fosse uma “pirâmide”, de acordo com Purper. “Saía da base e chegava para quem administrava o dinheiro. O dinheiro era administrado em prol dos líderes, as pessoas abaixo na pirâmide contribuíam sem ter retorno”, afirmou.

As contas eram utilizadas de forma intercalada, alternando a cada três, quatro meses, para impedir que órgãos como o Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) e bancos percebessem a movimentação. As contas eram de passagens, utilizadas para administrar valores, mas não para manter grandes quantias em depósitos, segundo apurou a PF.

“A contabilidade era feita em forma de planilha, como se fosse uma empresa. Os valores entravam e saíam”, destacou. Segundo Purper, a força-tarefa conseguiu acompanhar a cobrança de pessoas endividadas com a facção. “Quem deve ou paga ou é excluído ou espancado. Por vezes, a pessoa aceita ser castigada para ter a dívida perdoada. Muitas vezes quem deve a rifa tem que pagar isso com a prática de crimes, como o assassinato de agentes penitenciários em Cascavel. Eles eram devedores da facção.”

Ainda segundo o delegado, os visitantes dos presos nas penitenciárias federais recebiam valores para contribuir com informações. A PF chegou ao valor de R$ 311 mil gastos pela facção com visitantes nas penitenciárias por mês. A comunicação dos presos, segundo o delegado, é um problema para os agentes de segurança e uma facilidade para as facções do Paraná, uma vez que o uso de celulares nas penitenciárias é uma “infeliz realidade do Brasil”.

Além da comunicação digital, os policiais apreenderam “bilhetinhos” que seriam levados para as unidades prisionais. “São as principais formas de comunicação dos presos com o meio externo. Acha-se que é carta da família, que é a ideia que se passa, mas na prática cartas para família são uma a cada 20. As outras são cobranças de dívida, assaltos e drogas”, apontou.

Por conta disso, a PF solicitou o bloqueio das visitas aos presos investigados. “Porque isso não busca seu fim, que é manter a família próxima do preso para ele voltar para a sociedade. Essa é a ideia do sistema, mas muitas vezes há uma deturpação”, acrescentou.

Ricardo Hiroshi Ishida, delegado regional de combate ao crime organizado e também coordenador da Lava Jato, explica que em poucos meses de rastreamento a PF conseguiu identificar o uso de contas para pagamentos de despesas correntes da facção como compra de armas e drogas. “É como se fosse uma tributação do crime. Vinte e cinco por cento do salário mínimo iria para a tributação dessas facções criminosas”, disse.

Os mandados foram expedidos para Londrina, Curitiba, São José dos Pinhais, Paranaguá, Centenário do Sul, Umuarama, Pérola, Arapongas, Tapejara, Cascavel e Guarapuava. Além do Paraná, também foram cumpridos mandados em nos Estados de São Paulo (Praia Grande, Itapeva, Osasco, Itaquaquecetuba, Hortolândia, capital e no presídio de Valparaíso), Mato Grosso do Sul, Acre, Roraima, Pernambuco e Minas Gerais, contabilizando um total de 23 cidades. Entre as ordens de prisão, oito foram destinadas a pessoas já presas. Quatro no Paraná, três em São Paulo e uma no Mato Grosso do Sul. Até o final da manhã, 20 pessoas já tinham sido presas.

“É de interesse do Ministério Público não permitir que a criminalidade se instale no Paraná, como vem se instalando nos últimos anos. A medida visa sufocar a movimentação financeira para que eles saibam que no Paraná eles não têm mais espaço”, afirmou a promotora do MPPR, Kelly Caldeira.

A ação teve apoio do Ministério Público do Estado do Paraná, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado de São Paulo, do Departamento Penitenciário Federal, da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo e da Polícia Militar de São Paulo.

'É seguindo o dinheiro que se chega às lideranças'

As facções surgiram nos presídios e neles está a mão de obra necessária para a empresa criminosa. Mirar no orçamento dessa empresa é uma estratégia inteligente para combater o crime organizado, na opinião de especialistas. “A literatura aponta que a melhor maneira para combater esse tipo de associação é o sufocamento da capacidade financeira”, explicou Felippe Angeli, coordenador de Advocacy da ONG (Organização Não Governamental) Instituto Sou da Paz. “É seguindo o dinheiro que se chega às lideranças e não apenas aos 'peixes menores'”, acrescentou.

Os “funcionários” operam pelo PCC por todo o País e no exterior, como no Paraguai e na Bolívia, com o tráfico de drogas. “Essa facção tem envolvimento grande dos presídios na disputa pelo tráfico de drogas, é muito dinheiro que circula. Sem o dinheiro eles não conseguem sustentar o empreendimento criminoso.” Para Angeli, a força das facções vem mais do presídio do que das ruas.

Na visão do especialista, a partir do momento que os jovens são presos em “condições deploráveis”, a única maneira que eles enxergam de sobreviver naquele espaço é se filiando a uma facção. “A facção fornece segurança, bens de consumo como sabonete, pasta de dente, advogado caso ele não tenha, custeio do transporte da família para visitar. Então ele vai de alguma forma conviver com isso enquanto estiver preso. No momento que sair da cadeia, ele está em dívida com a facção.”

Funciona praticamente como um sistema de previdência ao contrário. Os faccionados contribuem com a rifa na liberdade para que caso sejam presos tenham acesso aos “serviços sociais” das facções nos presídios. A isso, Angeli atribui o exorbitante crescimento do PCC e demais facções que surgiram nos presídios.

“Nenhuma facção surgiu em qualquer periferia, mas sim dentro dos presídios. É uma forma de organização da massa carcerária para conseguir organizar minimamente a vida dentro dessas masmorras.” Para Angeli, encarcerar jovens que cometeram pequenos crimes aumenta a “mão de obra” das facções. Jovens que, ao deixarem a prisão, terão dívidas com a organização.

Walter Ernesto Ude Marques, especialista em questões prisionais e desigualdade social pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), trabalhou cinco anos no sistema prisional. Para ele, “fica muito claro que quem está preso é o pobre”. “Hoje, com o nível de desemprego do País e a falta de investimento na educação e saúde, os jovens são jogados no crime por falta de trabalho, e o crime organizado é uma empresa, que conhece bem o sistema financeiro. A facção reproduz uma empresa, o gerente, o soldado que faz a segurança, a disputa de mercado, a mesma lógica capitalista. O traficante não vai fazer revolução social, ele quer ser rico como um patrão de uma empresa, reproduz o sistema só que com um trabalho criminoso”, opinou.

Já Angeli lembra da importância do Coaf (Conselho de Atividades Financeiras) para as investigações relacionadas ao dinheiro das facções. Conselho que, recentemente, foi pauta de polêmica por conta da decisão do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, que determinou que as investigações baseadas em informações financeiras do Coaf obtidas sem decisão da Justiça fossem suspensas.

Antes da decisão, as movimentações atípicas do Coaf eram repassadas diretamente à Polícia Federal e ao Ministério Público. Ficou suspensa a investigação relacionada ao filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro (PSL), mas a medida “prejudica também investigações em andamento sobre o PCC, por exemplo”, como lembrou Angeli, citando o chefe do Ministério Público de São Paulo, Gianpaolo Smanio.

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