Brasília, 28 (AE) - A Polícia Federal (PF) vai investigar indústrias químicas de São Paulo e do Rio que estariam utilizando supostos caixas 2 e outros artifícios para esconder a exportação de insumos químicos para a Colômbia, especialmente éter e acetona, utilizados no refino da cocaína. O secretário Nacional Antidrogas (Senad), Walter Maierovitch, receberá da Secretaria de Justiça de São Paulo, na próxima semana, uma lista de todas as indústrias químicas do Estado, que servirá de base para o início das investigações da PF.
Esta será a maior investigação já realizada sobre a participação de um forte setor da economia brasileira no esquema montado pelo narcotráfico. Maierovitch disse que serão cruzados os cadastros e os contratos sociais de 22 mil indústrias químicas em todo o País. Metade destas indústrias ficam no Estado de São Paulo. As investigações começam a ser realizadas assim que a Secretaria de Justiça de São Paulo entregar os disquetes com as informações das juntas comerciais. Posteriormente, o secretário receberá os dados do Rio.
De acordo com o secretário Maierovitch, já foram detectadas exportações irregulares de insumos do Brasil para a Colômbia. Muitas indústrias estariam exportando químicos e recorrendo ao chamado caixa 2 para esconder as operações. Além desta fraude tributária, que "esconde" o produto, estas indústrias realizam outros artifícios, exemplo da exportação fictícia. O secretário disse que muitas empresas vendem, por exemplo, recipientes de 50 litros com apenas 30 litros de produto químico e o restante de água. "Na escrituração regular saíram 50 litros de produto químico", disse o secretário. Os outros 20 litros são vendidos sem nota fiscal. "O caixa dois é aquilo que sai do controle, que não tem registro".
A Polícia Federal também vai redrobar a atenção nas empresas que alteraram diversas vezes os contratos sociais, para inclusão de novos sócios. A investigação dos cadastros e dos contratos sociais das empresas e de seus donos, principalmente as pequenas e médias, permitirá à PF chegar às que estão participando de vendas trianguladas. Colômbia - Até o ano passado, a Colômbia comprava oficialmente 45% dos insumos químicos de Trinidad e Tobago, país que "não tem nenhuma indústria química", segundo Maierovitch. Oficialmente, só 6% dos produtos químicos importados pela Colômbia seriam de origem brasileira, dado que não nunca convenceu as autoridades colombianas. A chamada investigação por atacado é uma forma de cortar a principal fonte de alimentação do narcotráfico, que são os insumos químicos. Sem estes insumos, não é possível refinar cocaína.
Já se sabe que os traficantes estão recorrendo a vários outros produtos para refinar a droga, inclusive cimento comum. O secretário disse que a Polícia Federal também vai prestar muita atenção nas empresas que fabricam o chamado permanganato de potássio. "Este produto dá a cor branca e o cristal da cocaína", disse o secretário. Em um segundo momento, o governo brasileiro pretende impor um controle maior sobre as empresas transportadoras de produtos químicos.
Maierovitch disse que haverá uma intensa troca de informações sobre o comércio de produtos químicos entre Brasil e Colômbia. "Nós vamos informar à Colômbia todas as exportações que serão feitas", disse. Estas informações permitirão investigação rápida e mais eficiente. "Parte dos insumos importados legalmente pela Colômbia saem de controle e vão para os laboratórios de refino", disse. O secretário afirmou que a Lei de Precursores Químicos, pela qual o governo controla a venda de produtos químicos, já ajudou a reprimir bastante o comércio de produtos utilizados no refino da cocaína.

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