PF investiga bens de juízes sob suspeita
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sábado, 25 de setembro de 1999
Por Hugo Marques ( especial para AE) 
Brasília, 26 (AE) - A Polícia Federal está analisando a lista de bens e de depósitos bancários de juízes de Mato Grosso que são acusados de liberação ilegal de traficantes, com o objetivo de encontrar um suposto elo financeiro com o narcotráfico. As informações levantadas até agora, segundo agentes federais envolvidos na apuração, já permitem perceber que alguns juízes têm propriedades e movimentações bancárias que precisam ser checadas.
O desembargador Flávio José Bertin - apontado como responsável pela libertação do traficante Leudson Galdino de Melo e Silva, o Naco, entre outras acusações - tem um apartamento de US$ 700 mil, um de US$ 200 mil e uma chácara de R$ 1 milhão, valores que ele próprio declarou no cadastro bancário do Banco Sudameris em Mato Grosso, em 2 de abril de 97. Os agentes federais estão checando a origem do dinheiro usado na compra dos imóveis e se o valor da chácara é o que está declarado.
Bertin apresentou declaração de renda mensal de R$ 19,7 mil. Os agentes federais preferem não levantar suspeitas antecipadamente na comparação entre o salário e o nível de vida do juiz, já que ainda não dispõem de todas as informações possíveis. O sigilo bancário, telefônico e fiscal do juiz está sendo quebrado e alguns dados ainda não foram informados.
Movimentação - O juiz da 1ª Vara de Falências e Concordatas de Cuiabá, José Geraldo da Rocha Barros Palmeira, também apontado como integrante do esquema de libertação irregular de traficantes, tem um dos prontuários que mais chamaram a atenção dos agentes federais. Palmeira apresentou o que a polícia chama de "irregularidade" nas movimentações bancárias.
Com salário de R$ 9 mil, ele tinha um saldo negativo que chegou a R$ 18 mil em 1995. Mas nesse ano, entraram R$ 30 mil na sua conta, de um suposto empréstimo bancário.
Em outubro de 1997, segundo documentos em mãos dos agentes federais, entraram na sua conta mais R$ 30 mil, que seriam de novo empréstimo. A PF prefere não fazer associações da entrada desses depósitos com datas de libertação de traficantes, para não antecipar conclusões.
Segundo documentos que chegaram à PF, Palmeira gastou US$ 16.491,44 em cartões de crédito internacionais, entre outubro de 96 e maio de 97. Há ainda algumas retiradas na boca do caixa do banco que estão sendo investigadas, como um cheque nominal que ele descontou em novembro de 94, no valor de R$ 15 mil.
O juiz é acusado de integrar um esquema de libertação ilegal de traficantes em Mato Grosso e Alagoas. Há telefonemas do juiz para Maceió e a polícia investiga se todos são para casas de parentes.
Afastado das funções desde março de 1998, Palmeira foi reconduzido ao cargo por liminar concedida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) na semana passada. Ele foi denunciado em processo aberto pelo Ministério Público de Mato Grosso em 1995, por concessão de privilégios e liberação ilegal de traficantes, facilitação de prostituição em presídios, corrupção ativa, falsidade ideológica e subtração e inutilização de documentos públicos. As mesmas acusações eram feitas pelo juiz Leopodino Marques do Amaral, assassinado no início do mês.
Extratos - Estão sendo levantadas ainda informações sobre o juiz Pedro Pereira Campos Filho, da 1ª Vara Criminal de Rondonópolis (na região sul do estado). A polícia, no entanto, ainda não recebeu todos os extratos bancários e as contas telefônicas dele. E avalia que, até o momento, os extratos disponíveis não permitem levantar quaisquer conclusões.
A PF também vai investigar os chamados sinais exteriores de riqueza dos magistrados, como lanchas, barcos, jóias e carros. Procurados pela AGÊNCIA ESTADO, Bertin, Palmeira e Campos Filho disseram que só vão se pronunciar no momento oportuno.


