Rio, 28 (AE) - A Polícia Federal vai realizar uma acareação entre o chefe do gabinete Militar da Presidência da República, general Alberto Cardoso, e o chefe da Agência Brasileira de Informações (Abin) no Rio, João Guilherme dos Santos Almeida. A contradição entre os depoimentos dos dois no inquérito que apura o grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é considerada pela polícia como um dos fatos mais relevantes da investigação.
Em seu depoimento, o general afirmou que, numa viagem ao Rio
em agosto do ano passado, recebeu de Almeida a informação de que corria um boato dando conta da existência de gravações de telefonemas sobre a privatização da Telebrás e, entre eles, haveria um do presidente Fernando Henrique Cardoso. Almeida, porém, que foi ouvido duas vezes pela PF, disse ter informado ao general sobre um material comprometedor contra o o presidente, sem especificar de que tipo ou a respeito de que área do governo.
A imprecisão num dado importante como a maneira que a Abin soube das fitas do grampo no BNDES é um dos elementos que reforçam a convicção da PF de que a escuta foi colocada por funcionários da agência - embora não se tenha descoberto se a mando da Abin ou por motivação própria. Além disso, embora o general e o chefe regional da Abin concordem que tiveram a primeira conversa sobre o assunto em meados de agosto, as novas fitas divulgadas esta semana indicam que a escuta foi feita até setembro.
Outro indício está nos sucessivos adiamentos do depoimento de Almeida. Segundo consta dos autos, ele foi convocado para depor em 9 de abril, quatro dias antes do general Alberto Cardoso. Num ofício enviado ao delegado Rubens Grandini, encarregado do inquérito, o chefe da Abin no Rio diz, porém, que só poderia falar se autorizado por seus superiores.
O depoimento foi adiado, então, para o dia 15, o mesmo do interrogatório do general. Almeida alegou ter compromissos funcionais e acabou depondo nove dias depois de Cardoso. As justificativas de Almeida não convenceram a polícia.
No inquérito, porém, ainda não há provas suficientes para indiciar os possíveis autores. A esperança da polícia está depositada no deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), que diz ter ouvido funcionários da Abin dispostos a dar informações sobre o grampo, em troca de uma anistia prévia. Ontem (27), porém, numa reunião com Grandini, Miro não revelou nomes.
A cartada de grampear os arapongas suspeitos do crime não foi eficiente. A escuta foi posta nos aparelhos celulares do agente da Abin Temílson Antonio Barreto de Resende, o Telmo, do sócio de uma empresa de informações e segurança, Adilson Alcântara de Matos e do ex-policial federal Célio Arêas Rocha e revelou apenas conversas entre eles, combinando o que diriam em seus depoimentos e se admitiriam que se conhecem.
O grampo foi feito entre abril e maio e, no meio do caminho, os suspeitos perceberam a escuta. Chegam a dizer que vão à Telerj pegar o ofício do juiz autorizando a interceptação e, mais adiante, começam a falar de sua inocência. Fontes ligadas à investigação garantiram que nas gravações, ainda sob segredo de Justiça, não há nenhum telefonema do general ou do chefe da Abin no Rio.
Hoje, o juiz da 2ª Vara Federal do Rio, Alexandre Libonati de Abreu, divulgou nota oficial dizendo que o segredo de Justiça impede a revelação de qualquer dado sobre o assunto, mas lembrou que quem se sentir atingido pela publicidade do caso dispõe "de mecanismos jurídicos próprios" para obter informações do caso.
O general Alberto Cardoso, por força do cargo, tem prerrogativa para escolher a hora e o local onde acontecerá a acareação. Hoje, o delegado Rubens Grandini reuniu-se no Rio com os procuradores da República que acompanham o inquérito e recebeu de volta toda a documentação. Ele prometeu enviar, na próxima semana, a transcrição das fitas.

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