PF encontra no Paraguai carro que teria sido usado em crime
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domingo, 14 de março de 1999
Por Hugo Marques (especial para a AE) 
Brasília, 15 (AE) - A Polícia Federal encontrou hoje, num vilarejo próximo a Ciudad del Este, no Paraguai, na divisa com Foz do Iguaçu, uma picape Ranger que teria sido vendida para comprar armas e financiar a fuga dos assassinos da deputada Ceci Cunha (PSDB-AL), no dia 16 de dezembro do ano passado. A polícia teve a ajuda da Interpol nos trabalhos de investigação. O ministro da Justiça, Renan Calheiros, já telefonou para o ministro do Interior do Paraguai, Ruben Arie, para trazer a picape de volta ao Brasil o mais rápido possível, o que poderá ajudar a esclarecer o crime.
Os policiais apuram também a informação de que ex-assessores do deputado Talvane Albuquerque (PTN-AL) - que assumiu a vaga de Ceci e é suspeito de ter sido o mandante do assassinato da deputada e de mais três pessoas de sua família - teriam trocado o veículo por armas pesadas no Paraguai.
Braço direito de Talvane, o assessor parlamentar Winer Luís Lopes da Silva registrou ocorrência por suposto roubo da mesma Ranger preta, placa KDK 8066, comprada em sistema de leasing com dinheiro do deputado alagoano. Winer foi denunciado na semana passada pela Promotoria de Justiça de Alagoas na 1.ª Vara Especial Criminal, acusado de ter financiado o crime. Na noite do assassinato da deputada, ele esteve em uma delegacia de Brasília para dar queixa de assalto.
O assessor contou que, naquela ocasião, a picape teria sido levada pelos assaltantes num balão da superquadra 109/110 Sul, às 22h20, em Brasília. A história relatada por Winer na delegacia não convenceu os policiais que, desde o início, desconfiaram que o veículo teria sido vendido para financiar a fuga dos assassinos da deputada. Ele disse ter sido assaltado por três homens armados.
A picape foi encontrada no Paraguai numa operação que contou com a colaboração de agentes da Interpol, da Polícia Federal de Foz do Iguaçu e policiais paraguaios. O veículo, que foi trocado em Ciudad del Este por armas, passou pelas mãos de três donos no Paraguai, o que dificultou as investigações. Segundo as primeiras informações colhidas pela PF, o carro foi vendido a outros dois donos em cidades próximas a Ciudad del Este, antes de ser legalizado em território paraguaio.
Somente na primeira negociação é que a Ranger foi trocada por armas. O primeiro receptador teria entregado algumas armas pesadas a um brasileiro, que a polícia investiga se é um dos três assessores do deputado, encarregado de atravessar o carro pela fronteira. No dia do crime, os assessores José Bezerra da Silva Júnior, Jadielson Barbosa da Silva e Alécio Alves foram vistos fugindo do local onde Ceci foi assassinada. Winer teria repassado o dinheiro para os três fugirem.
A pessoa que comprou o carro do receptador paraguaio, que a polícia tenta encontrar, vendeu-o por um preço barato, como forma de livrar-se o mais rápido possível do veículo. O segundo comprador, que pagou uma quantia um pouco maior pelo veículo, em dinheiro, registrou o carro em seu nome. Trata-se do paraguaio Catalino Gonçalves. O receptador e os outros dois donos da picape moram em cidades diferentes, segundo investigação da polícia, o que vem dificultando o rastreamento completo de todo o caminho feito pelo suposto assessor do deputado até a entrega do carro em Ciudad del Este.
Outra dificuldade para o trabalho da PF, Interpol e polícia paraguaia é que Catalino conseguiu documento oficial no órgão de trânsito do Paraguai e o carro foi "legalizado". O ministro Renan recebeu na sexta-feira a informação de que a picape havia sido encontrada no Paraguai. Imediatamente, telefonou para o ministro do Interior do Paraguai e explicou que o veículo havia sido utilizado na fuga de um crime que abalara o Brasil.
O ministro Ruben Arie se prontificou a fazer tudo o que for possível para ajudar a recuperar o veículo em território paraguaio e tentar levantar provas que possam ajudar no paradeiro de todos os donos da caminhonete no país. No fim de semana, o governo brasileiro enviou documento ao Ministério do Interior do Paraguai com toda a descrição da picape.
Entre os dados, estão ano, cor, modelo, número de chassi, placa original e detalhes que podem ajudar na comprovação de que a picape que está no Paraguai é realmente a que a PF está procurando.


