PF e PM do DF brigam para não abrigar Pascoal
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quarta-feira, 22 de setembro de 1999
Por César Felício, Chico Araújo e Sandra Sato 
Brasília, 23 (AE) - As Polícias Federal (PF) e Militar do Distrito Federal disputaram hoje quem teria o privilégio de não abrigar o ex-deputado Hildebrando Pascoal (sem partido-AC), cassado ontem (22) e preso em Brasília desde a madrugada de hoje. Inicialmente levado à Superintendência da PF, desde cedo começaram as gestões para que o ex-deputado fosse transferido para a guarda da PM, uma vez que ele é coronel reformado da PM acreana e teria direito a ficar em dependências militares, de acordo com o Artigo 242 do Código Penal Militar.
Preocupado com a transferência, uma vez que não há presídio militar em Brasília, o comandante da PM do Distrito Federal, coronel Antônio Ribeiro da Cunha, reuniu-se com o superintendente da PF no Distrito Federal, Paulo Magalhães, logo pela manhã, para tratar do assunto. "Ele fez gestões para que Hildebrando ficasse na Polícia Federal, já que a alternativa, que seria o remeter para o Acre, era inviável", disse um dos integrantes do comando da PM brasiliense.
A preocupação de Cunha era pelo medo de se repetir o episódio da fuga do tenente Osmarinho Cardoso, que escapou do 3º Batalhão da PM, em 8 de novembro de 1997, por negligência da guarda.
Cardoso foi o chefe do bando que sequestrou, em setembro daquele ano, a filha do hoje senador Luís Estevão (PMDB-DF).
"Não existe cela de segurança máxima na PM daqui; para um prisioneiro como Hildebrando, vai ser necessário destacar 40 guardas para escolta; e, se outros policiais militares do Acre forem encaminhados para cá, o policiamento da Asa Norte do Plano Piloto será afetado", afirmou este oficial, detalhando que cela de segurança máxima significa portas blindadas, sistema de vigilância eletrônica, perímetro de segurança em torno da cela e total isolamento do preso em relação a outros detentos.
Mas a pressa da PF de se desfazer de Pascoal era tão grande que, logo que o juiz da 2ª Vara Federal, Pedro Francisco da Silva, enviou a ordem para que o ex-deputado federal sem partido do Acre fosse transferido num camburão da PF, removeu-o para o Comando-Geral da PM, que fica aproximadamente a 300 metros de distância. "Ficamos totalmente atônitos; estávamos em horário de almoço e houve transtornos para receber o ex-deputado", queixou-se o oficial da PM, relatando que o procedimento habitual nestes casos é a própria PM ir à PF com o camburão para remover o prisioneiro. Sequer o exame de corpo delito no Instituto Médico-Legal (IML), uma praxe adotada pela PF para não ser vítima de acusações de maus tratos a prisioneiros, foi feito.
O mais curioso é que os dois advogados de Pascoal, Pedro Calmon e Eri Varella, negaram ter pedido a transferência do cliente. "Qualquer jornal que publicar que nós pedimos a transferência receberá uma representação judicial pela falsa informação", afirmou, irritado, Varella. No entanto, o advogado não disse a verdade. Na madrugada em que o ex-deputado foi preso, Varella deu uma entrevista gravada onde afirma que o cliente queria se entregar à PM do DF, por ser coronel e ter direito a este privilégio. O advogado até mesmo telefonou para o comandante da PM, o secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Paulo Castelo Branco, e o governador Joaquim Roriz (PMDB), de acordo com o que testemunhou a reportagem. Naquela madrugada, soldados da PM externaram o medo de que Pascoal fosse abrigado em instalações militares. Comentaram com jornalistas que receavam por uma operação de resgate.
Logo que foi entregue à PM, Pascoal foi transferido do Comando-Geral para o Batalhão de Operações Especiais, onde foi medicado: com dores abdominais e gases, o ex-parlamentar não almoçou e teve uma colite diagnosticada por médicos da corporação. A previsão é que, amanhã (24), ele seja novamente transferido para o mesmo batalhão de onde Cardoso fugiu em 1997. De acordo com os advogados dele, Pascoal demonstrou tranquilidade, apesar dos problemas físicos. O ex-deputado decidiu não pedir habeas-corpus e irá cumprir integralmente os 30 dias da prisão temporária. Exaltado, o advogado Pedro Calmon atacou a Câmara. "Ele não se defendeu ontem porque jamais iríamos servir de figurante num tribunal de exceção", afirmou.


