PF do AC acusa Pascoal de montar esquema de execução
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segunda-feira, 09 de agosto de 1999
Por Hugo Marques (especial para AE) 
Brasília, 10 (AE) - O superintendente da Polícia Federal (PF) no Acre, delegado Alberto Paixão, confirmou hoje, em depoimento à Corregedoria-Geral da Câmara, que o deputado Hildebrando Pascoal (PFL-AC) montou este ano um esquema para executar cinco autoridades que vêm denunciando o esquadrão da morte e o narcotráfico no Estado. O corregedor-geral Severino Cavalcanti (PPB-PE), após ouvir o depoimento e receber transcrições de fitas que comprovaram as ameaças, anunciou que apresentará pedido para cassar Pascoal.
O líder do PFL na Câmara, Inocêncio de Oliveira, disse hoje que vai encaminhar ao partido proposta de expulsão de Pascoal.
Cavalcanti disse não ter mais dúvida de que é necessário cassar Pascoal na Câmara. O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que, em fevereiro, recusou a abertura de processo de cassação de Pascoal, pediu hoje "urgência" na entrega de um parecer da Corregedoria-Geral sobre o deputado do Acre, segundo relatou Cavalcanti. A Mesa Diretora da Câmara reúne-se amanhã (11), às 10 horas, para examinar o pedido de cassação de Pascoal.
Pascoal, que estava hoje no Acre, foi convocado às pressas a Brasília, logo depois do depoimento de Paixão. A partir do depoimento de Paixão, o PFL fez chegar ao corregedor-geral a notícia de que analisaria a situação de Pascoal no partido. "Por que não expulsou antes?", reagiu Cavalcanti.
A transcrição que o corregedor-geral recebeu da PF mostra pessoas confirmando que Pascoal tinha feito um plano para "exterminar" o ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho, a secretária de Segurança Pública do Acre, Salete Maia, o procurador da República Luiz Francisco de Souza, a deputada estadual Nalu Golveia (PT-AC) e um oficial da Polícia Militar, que denunciaram os crimes do deputado.
Um dos que tiveram a conversa gravada pela PF disse que Pascoal, para "pegar" Silva Filho, usaria pessoas que estavam em Brasília. Outro disse que viu Pascoal "várias vezes apagar".
Outra testemunha confirmou a lista de pessoas que seriam assassinadas e afirmou que as mortes poderiam ser provocadas por meio de "acidente".
Apesar de ter recebido a transcrição da fita, Cavalcanti requisitou a gravação original da PF para que seja anexada ao pedido de cassação. O corregedor-geral disse não ter mais dúvidas da ligação de Pascoal com os grupos de extermínio e de tráfico de drogas. "A coisa está caminhando de uma forma tão clara que eu não tenho mais dúvidas", disse.
Silva Filho, que também prestou depoimento à Corregedoria, disse ter recebido informações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara de que Pascoal recebeu nas contas dinheiro do empresário Raimundo Damasceno. A CPI do Narcotráfico ficou de enviar relatório à Corregedoria-Geral.
A CPI do Narcotráfico ouviu hoje o traficante Waltermir Gonçalves de Oliveira, que afirmou ter distribuído cocaína no Acre para o grupo comandado por Pascoal. Segundo Oliveira, Pascoal, o ex-governador Orleir Cameli, Damasceno e o empresário conhecido como "Betão" fazem parte do mesmo grupo de traficantes. Pascoal chegou na hora em que Oliveira estava depondo e este confirmou os crimes do deputado.
Oliveira afirmou que a quadrilha leva drogas para outros Estados por caminhões, debaixo de couros de vaca, que fedem muito e não são revistados. O traficante reafirmou ter uma fita na qual Pascoal aparece cortando com motosserra os braços de Agilson Firmino, o "Baiano".
Oliveira disse que só vai liberar a fita se for solto da cadeia. Irritado, Pascoal abandonou o depoimento. "Tenho de aguentar cada coisa!", disse Pascoal.
Cavalcanti acusou o governador do Acre, Jorge Viana (PT)
de "premiar" os traficantes de drogas, ao transferir o delegado Carlos Alberto Bayma de Rio Branco para Feijó, área de atuação de Damasceno, apontado por testemunhas como traficante da região.
Segundo informações que chegaram ao corregedor-geral, Bayma foi condenado por tentativa de homicídio e é acusado pela Justiça do Acre de tráfico de influência, por ter libertado vários traficantes, a pedido de Pascoal. Testemunhas que prestaram depoimento à CPI do Narcotráfico confirmaram estes fatos. Cavalcanti mostrou-se irritado, especialmente com a secretária de Segurança do Acre, que, em depoimento prestado à corregedoria-geral ontem (09), não informou que Bayma tinha sido transferido pelo governador para outra delegacia de polícia.
O governador telefonou hoje para o corregedor e explicou que não sabia do envolvimento de Bayma com o tráfico. O governador pediu que o corregedor não fizesse mais declarações envolvendo o governo dele com o tráfico de drogas. Os senadores Tião Viana (PT-AC) e Marina Silva (PT-AC) também pediram que o corregedor não fizesse este tipo de declaração.
A acusação do corregedor causou debates acalorados no plenário da Câmara. O deputado José Genoíno (PT-SP) reclamou das declarações de Cavalcanti. O corregedor-geral ironizou e disse que "todo mundo conhecia" a história do delegado do Acre, menos o "puro" governador. Pascoal também foi ao plenário e disse que está havendo uma "armação" contra ele.


