PF deve investigar morte de Anghinoni
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de abril de 1999
Hugo Marques Especial para a AE 
O ministro da Justiça, Renan Calheiros, determinou ontem, em Brasília, que a Polícia Federal instaure inquéritos criminais para apurar o assassinato do sem-terra paranaense Eduardo Anghinoni, dia 29 de março, em Querência do Norte (PR), e a tortura a que foi submetido o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), em Marmeleiro (PR), Seno Staats, no último dia 5. O ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, defendeu a prisão de fazendeiros ligados à União Democrática Ruralista (UDR), acusados pelos sem-terra de liderar a violência Estado.
Após reunião com vários representantes do MST, da Igreja e parlamentares, Calheiros afirmou que vai convocar autoridades do governo do Paraná para prestar depoimento sobre a violência no Estado. O encontro, realizado na sala de reuniões do Ministério da Justiça, teve momentos marcados pela emoção - quando Seno Staats relatou a tortura que sofreu ao ser sequestrado no início do mês - e também tensão, no momento em que lideranças do MST cobraram dos ministros medidas efetivas contra a violência.
Vocês tomem medidas urgentes para evitar a impunidade que está matando nosso povo, disse chorando Roberto Baggio, coordenador do MST no Paraná, fitando os olhos no ministro da Justiça. A origem disso tudo está na inexistência de reforma agrária no Estado, disse Baggio, desta vez apontando o dedo para Jungmann. Seno Staats também chorou ao ouvir o depoimento de Baggio.
Após ouvir os depoimentos, Calheiros determinou ao diretor geral interino da PF, Wantuir Brasil Jacine, que instaure inquéritos nos casos em que a violência for competência da União e que acompanhe todas as investigações que estão sendo feitas no Estado. O ministro da Justiça anunciou que irá convocar autoridades das secretarias de Segurança e de Justiça do Paraná, além de representante da Procuradoria de Justiça para discutir a violência no Estado. Os depoimentos deverão ser prestados à área de direitos humanos do ministério.
No encontro, os sem-terra reclamaram do governo federal ter reduzido o ritmo da reforma agrária no Paraná. Roberto Baggio disse que há 20 fazendas para serem vistoriadas e desapropriadas, que pertencem a grandes bancos e ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), mas que o governo não tem dinheiro para realizar os assentamentos. Jungmann explicou que a máquina está quase paralisada devido a problemas com orçamento, mas pediu aos sem-terra a lista destas propriedades, para que faça as vistorias e desapropriações. -
O ministro de Política Fundiária condenou a violência e disse esperar que o pessoal da UDR seja preso porque é bandido, numa referência aos supostos fazendeiros que mataram e torturaram. Renan Calheiros prometeu ainda telefonar para o governador do Paraná, Jaime Lerner. Não concordamos com o que está acontecendo no Paraná e isto tem minha repulsa, disse.
O deputado Padre Roque (PT-PR), para quem Eduardo Anghinoni trabalhava como assessor, entregou aos ministros uma lista com os nomes de dez lideranças do MST ameaçadas de morte no Estado e deixou claro que vai cobrar do governo por eventuais mortes. Na lista está o nome de Celso Anghinoni, irmão de Eduardo. Estariam ameaçados de morte, além de Celso Anghinoni, Jaime Callegari, Julir das Chagas Martins, Ademir Dalazen, Antônio Arrepiado, Claimar Schimitz, Jairo
Zatta, Seno Staats, Pedro Alves Cabral e Delfino Becher.
Calheiros disse que vai discutir com as autoridades do Paraná uma forma de dar proteção às pessoas ameaçadas, porque a PF não tem efetivo suficiente no Estado. Disse ainda que a luta pela posse da terra é legítima, mas afirmou que a reforma agrária tem de ser feita dentro da lei.


