Brasília, 24 (AE) - A partir dos depoimentos colhidos pela Comissão Parlamentar de Inqúerito (CPI) do Narcotráfico na Câmara, a Polícia Federal (PF) deverá abrir mais de 70 inquéritos contra o ex-deputado Hildebrando Pascoal (sem partido-AC). A PF e o Ministério Público (MP) vão transformar em investigações as citações genéricas feitas por quase 40 testemunhas contra o parlamentar cassado.
Se receber a pena mínima em cada um dos crimes a que é acusado, ele poderá ser condenado a 350 anos de prisão.
Hoje, as investigações no Acre foram assumidas pelo delegado federal Jones Ferreira Leite - condecorado em 1998 com um prêmio de defesa dos direitos humanos pelo presidente Fernando Henrique Cardoso -, que foi o responsável pela primeira apuração das denúncias contra o deputado, em 1998. Entretanto, o Ministério Público Federal vai pedir ao governo que envie uma força-tarefa para o ajudar.
"É completamente impossível fazer este trabalho sozinho; por isso, vamos pedir o envio de pelo menos dois delegados, três escrivães e diversos agentes", afirmou o procurador Luiz Francisco Fernandes de Souza, que assessora a CPI do Narcotráfico. "Vamos enviar para o Acre quantos policiais forem necessários", confirma o diretor-geral da PF, Agílio Monteiro Filho. Segundo ele, a PF vai enviar um efetivo para o Acre que ficará até a conclusão de todas as investigações. "Ficarão o tempo que for necessário."
Pelas citações feitas na CPI, Pascoal teria cometido ou tido participação indireta entre 40 a 50 homicídios, além de mais de dez denúncias de envolvimento com o narcotráfico. Neste último caso, além de ser investigado como traficante internacional - uma vez que as testemunhas afirmaram que a droga vinha da Bolívia - , o ex-deputado também é suspeito de formação de organização para a prática criminosa com o objetivo de tráfico de drogas.
Oficialmente, Pascoal responde a apenas cinco processos que se encontram no Supremo Tribunal Federal (STF). Dois por homicídio - pelas mortes de José Hugo Alves Júnior e Agilson Firmino, envolvidos na morte do irmão do ex-deputado -, um por ter desacatado policiais federais nas últimas eleições, outro por sequestro e cárcere privado contra Clesrinar dos Santos Alves (mulher de Alves Júnior) e o último por narcotráfico.
Os inquéritos serão desmembrados de outros dois, denominados dentro da polícia como "mães". O primeiro é o que apura a morte de Alves Júnior, que era acusado de ser o matador do subtenente Itamar Pascoal, irmão de Pascoal. Ele foi morto em Corrente (PI), supostamente por um grupo comandado pessoalmente por Pascoal. Para se chegar a Alves Júnior, o ex-deputado teria cometido também crime de falsa ideologia, uma vez que teria se identificado como policial federal.
O segundo inquérito-mãe é envolvendo o ex-deputado com o narcotráfico. Ele foi aberto a pedido do MP, atendendo a solicitação da CPI. Nos depoimentos de um ex-empregado, Pascoal é acusado de ter ligação com o tráfico de drogas, até mesmo tendo possibilitado a retirada de latrocidas e homicidas da Penitenciária de Rio Branco para praticar crimes.
A PF ainda não sabe exatamente quantos inquéritos serão abertos, mas a estimativa é que cheguem a 70, uma vez que, para cada citação de testemunha contra Pascoal, haverá uma investigação. Além disso, outros inquéritos podem surgir com os desmembramento das informações obtidas no decorrer da apuração dos fatos.
Com isso, é pouco provável o deputado federal cassado sem partido do Acre ganhe liberdade em menos de 30 dias, quando expira a prisão temporária, que pode ser renovada por um período igual. Há a possibilidade de a Procuradoria-Geral da República voltar a pedir novas prisões, além da renovação da provisória de Pascoal. A alegação é que, se o ex-deputado for solto, poderá constranger testemunhas ou mesmo atrapalhar as investigações dos inquéritos.
Segundo Souza, será necessário também o envio de auditores da Receita Federal e Banco Central (BC) ao Acre para investigar diversos empresários suspeitos de ter enriquecido com o narcotráfico. "Vamos pedir ajuda a outros setores do governo para chegarmos a mais pessoas", afirma Souza.

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