Brasília, 05 (AE) - A Polícia Federal (PF) descobriu a forma pela qual o ex-deputado João Alves tornava legal o dinheiro que recebia como propina de empresários que eram beneficiados por obras incluídas no Orçamento-Geral da União, quando foi relator da Comissão Mista de Orçamento. Alves montou um esquema envolvendo empresários e "laranjas" - pessoas que emprestam o nome para transações ilegais. As primeiras investigações - que já se arrastam há seis anos - demonstraram que, em poucos meses, o ex-deputado legalizou US$ 20 milhões obtidos de forma irregular, numa operação conhecida como "lavagem" de dinheiro, com a ajuda da W.S. Câmbio e Turismo, agência sediada em Brasília. A PF acredita que esta é apenas a ponta de um iceberg e o esquema teria lavado US$ 1 bilhão só na capital federal.
O nome da W.S. Turismo foi formado com as iniciais de sua proprietária, a empresária Wilma Magalhães Soares. A empresária usou seus funcionários como laranjas. O nome de sua empregada, Joaquina Ribeiro dos Santos, foi utilizado para lavar US$ 1,4 milhão entre abril e dezembro de 1991.
Pelas informações obtidas pela PF, o dinheiro que estava sendo depositado nas contas da empregada foi enviado para o exterior. Em seu depoimento, Wilma negou-se a falar sobre o envio e a origem do dinheiro. Quem fazia a ponte entre Wilma e João Alves era o assessor parlamentar do ex-deputado, Trajano Tristão de Machado. Joaquina deu cópias de seus documentos para Wilma, mas não assinava os cheques, apesar de ter consciência de que seu nome estava sendo usado em uma operação ilegal.
No levantamento feito nas agências dos bancos Bandeirantes e Mercantil do Brasil, em Brasília, a PF constatou que os cartões de autógrafos de Joaquina não eram assinados por ela. Wilma fazia as movimentações. Segundo a PF, os laranjas não tinham emitido procuração para a abertura de contas em seus nomes.
Um dos principais testas-de-ferro de Wilma, que também servia a João Alves, Leonel de Melo Rocha movimentou em oito meses U$ 2,6 milhões. Ele trabalhava na agência como vendedor, mas era tido como braço-direito da empresária. Na lavagem de dinheiro do ex-deputado também foram utilizados empregados da Leg-Fru, distribuidora de frutas em Brasília, controlada por Silvio Magalhães Soares Neto, que na época era marido de Wilma. O casal separou-se depois.
O funcionário Robson Esteves da Silva movimentou US$ 2,7 milhões entre setembro e dezembro de 1992. Esses fantasmas da Leg-Fru também tinham contas bancárias em seus nomes, que eram movimentadas e gerenciadas diretamente pelos patrões. O outro funcionário da Leg-Fru, Raimundo Nonato da Silva Coelho, em apenas quatro meses (de janeiro a maio de 1992) movimentou US$ 5 4 milhões. Wilma e Silvio não colocavam os próprios nomes nas transações, o mesmo acontecendo com João Alves.
Segundo as investigações da PF, Wilma chegou a usar como laranja um assessor da Câmara dos Deputados que não tinha qualquer envolvimento na história. Este assessor, que a PF prefere não identificar, teve os seus documentos falsificados e o casal movimentou em sua conta, entre abril e 10 de agosto de 1993, US$ 4,2 milhões. Um dos empregados de Sílvio, segundo o inquérito que será encaminhado esta semana para a Justiça, assinava os talonários de cheque em branco e entregava ao patrão.
Assessor - O assessor parlamentar de João Alves, Trajano Tristão Machado, fazia todas as transações para o ex-deputado. Trajano visitou várias vezes a W.S. Câmbio e Turismo e recebeu cheques também em seu nome, repassando os recursos para João Alves. O próprio assessor, em seu depoimento à PF, disse que o dinheiro era depositado nas contas do ex-deputado.
Entre os "laranjas" identificados até agora, a PF descobriu cheques de Robson nominais a Trajano no valor de US$ 167 mil. O fantasma Leonel Rocha depositou US$ 908 mil nas contas de Trajano. Joaquina emitiu US$ 2,8 milhões em cheques nominais diretamente para o assessor.
A PF vai pedir que o inquérito seja anexado a outro que atualmente tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), no qual João Alves é apontado como um dos responsáveis pelo esquema de propina na Comissão de Orçamento. Segundo um delegado que teve acesso ao caso, os valores que o ex-deputado teria movimentado podem chegar a US$ 1 bilhão. "A agência de turismo foi apenas uma das formas encontradas para lavar o dinheiro", disse um delegado.
As informações levantadas pela PF desmontam completamente os argumentos do ex-deputado, de que teria ganho mais de 200 vezes na loteria, durante depoimento à CPI do Orçamento. As investigações demonstram que os esquemas de lavagem de dinheiro montados por João Alves tinham comunicação entre si. Nas investigações de lavagem de dinheiro na W.S. Câmbio e Turismo aparecem cheques emitidos em nome da Camisa 10, uma loja em que João Alves fazia suas apostas em Brasília.
A PF chegou às contas dos fantasmas da W.S. a partir de investigação conjunta com a Receita Federal. Os delegados dizem que há outros esquemas sendo investigados. Wilma receberá nos próximos dias notificações da Receita cobrando impostos milionários de todo o dinheiro sonegado ao longo de centenas de operações ilegais. A proprietária da W.S. está sendo processada por evasão de divisas e crime contra o sistema financeiro. Wilma já tinha uma condenação por crime contra o sistema financeiro, segundo informou a PF.

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