São Paulo, 05 (AE) - A Polícia Federal está concentrando as investigações sobre o dossiê Cayman na empresa que pertenceu ao ex-ministro das Comunicações Sérgio Motta, morto em abril. Sete dirigentes e ex-integrantes da cúpula da Hidrobrasileira S.A. Engenharia e Consultoria Técnica e de sua sucessora, a Harza-Hidrobrasileira Projetos de Engenharia Ltda, foram intimados para depor no inquérito que investiga suposta chantagem que teria sido montada contra autoridades do primeiro escalão dos governos federal e estadual.
O dossiê é um punhado de papéis com assinaturas que teriam sido forjadas apontando a existência de uma conta e uma empresa sediada nas Bahamas. Antes das eleições de outubro, o ministro da Saúde, José Serra, e o governador Mário Covas receberam cópias de alguns papéis por meio de fax. A PF suspeita que essa operação teria o objetivo de extorquir os tucanos, ameaçando-os com a divulgação de documentos sem autenticidade.
O delegado Paulo de Tarso Teixeira, que conduz o inquérito, decidiu ouvir os empresários porque em pelo menos um desses documentos, datado de novembro de 1996, aparecia datilografado o nome da Hidrobrasileira e uma rubrica que seria de Motta. O texto estava redigido em inglês e fazia menção a uma operação financeira que estaria em andamento, com o conhecimento de Serra.
Na terça-feira, Teixeira exibiu o papel ao engenheiro Plínio Xavier de Mendonça Júnior, ex-presidente da Hidrobrasileira e amigo de Motta. O delegado quis saber do engenheiro se o material é o mesmo habitualmente usado pela empresa. "Não há nada que se assemelhe", afirmou Mendonça Júnior. "Jamais nossa empresa usou o nome datilografado em documentos; me pareceu uma falsificação muito grotesca", disse o engenheiro. O delegado também quis saber se o ex-ministro continuou frequentando a empresa mesmo depois de se desligar da sociedade. "Depois que ele se afastou, em 1994, jamais retornou à Hidrobrasileira", afirmou Mendonça Júnior.
A Hidrobrasileira, que atuava no campo da engenharia hidráulica, foi criada em 1954. Motta ingressou na empresa em 1971. Mendonça Júnior assumiu o cargo de diretor-técnico em 1976. Depois que Motta afastou-se, ele assumiu a presidência. Em 1996, Motta e seu sócio decidiram vender a empresa para um grupo norte-americano - Harza Engeneering Internacional, com sede em Chicago e ramificação em 90 países. Surgiu a Harza-Hidrobrasileira Projetos de Engenharia. Mendonça Júnior permaneceu até 1997 na Harza, como diretor.
Os engenheiros Renato Carlos Porto e Maria Beatriz Hopf Fernandez, que trabalhavam na Hidrobrasileira, foram mantidos na Harza como diretores técnicos. A PF ouviu Renato Porto e também intimou Maria Beatriz. O delegado Paulo de Tarso quer ouvir, ainda, o relato de Dillinger Mendes, ex-diretor-financeiro da antiga empresa de Motta. Mendes desligou-se logo depois que Motta deixou a Hidrobrasileira. O diretor-administrativo-financeiro da Harza, Luís Alberto de Souza Aranha, foi ouvido.
Jatinho - Hoje, o deputado estadual Antônio Salim Curiati (PPB), um dos principais colaboradores do ex-prefeito Paulo Maluf, afirmou que não teve participação na contratação da empresa que fretou o jatinho para buscar o advogado Márcio Thomaz Bastos em Caxias do Sul (RS), às vésperas do segundo turno das eleições para governador. A PF acredita que Curiati estaria envolvido na divulgação do dossiê. Ele nega que tenha feito contato com a Cobrata Representação Aeronáutica para fretar o avião. "Não conheço a Cobrata", afirmou. A PF o questionou sobre um telefonema que ele teria dado às 2 horas do dia 23 de outubro. "Não liguei para ninguém, usaram o meu nome indevidamente", disse.

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