Rio, 30 (AE) - O delegado Deuler Rocha, da Polícia Federal (PF), informou que deve ser instaurado na sexta-feira, no Rio de Janeiro, inquérito para apurar irregularidades na emissão de debêntures da Teletrust, coordenada pelo Banco Marka. Será o terceiro inquérito contra o ex-dono do Marka, Salvatore Cacciola
condenado ontem (29) por transferência ilegal de dinheiro e suspeito de ter sido favorecido pelo Banco Central (BC) na operação de socorro ao banco, que fechou após a crise da desvalorização do real.
A emissão dos títulos, usados para financiar a compra de linhas telefônicas, teria dado lucro de R$ 10 milhões para o Marka. Ao mesmo tempo, os fundos de pensão, maiores compradores do papel, tiveram prejuízo de R$ 100 milhões, por causa da queda do valor das linhas, com a privatização das telecomunicações.
O delegado informou que a PF vai analisar amanhã (01) os documentos sobre à emissão. "Com certeza, tem muita coisa para apurar", afirmou Rocha, da Delegacia de Combate ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Delecoie). As suspeitas sobre a operação foram levantadas na investigação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou o Marka e o sistema financeiro.
Os senadores suspeitaram do fato de a Teletrust ter emitido debêntures de R$ 386 milhões, apesar de o capital da empresa ser de apenas R$ 10 mil. Também chamou a atenção o fato de a Teletrust ter entre seus sócios um ex-cunhado de Cacciola, Roberto Cruz Moyses, e um ex-funcionário do Marka, Jorge Gurgel Fernandes Neto.
Mas quanto à primeira suspeita, ficou provado, na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que, como as debêntures tinham seu valor calculado a partir da possibilidade de lucros futuros, com o financiamento das linhas, os títulos não eram obrigados a ter nenhum vínculo com o patrimônio da Telestrust. "Estou tranquilo quanto a este caso, a operação foi normal, aprovada pela CVM", afirmou o advogado de Cacciola, José Carlos Fragoso.
Recurso - Fragoso informou que entra amanhã (01) com recurso no Tribunal Federal do Rio de Janeiro (TRF-RJ) contra a condenação de Cacciola na 5ª Vara Federal, pelo juiz Abel Fernandes Gomes. Pelo desvio de recursos do Marka, Gomes determinou que Cacciola cumpra quatro anos e seis meses de prisão e pague multa de R$ 2 milhões de multa, mas o ex-banqueiro pode recorrer da sentença em liberdade.
Fragoso argumentará que o juiz foi influenciado pela repercussão negativa contra seu cliente durante a CPI dos Bancos
para julgar o processo, relativo a empréstimos que em 1991 o Marka concedeu ao publicitário João Simões Affonso, amigo de Cacciola. Segundo o processo instaurado pelo Ministério Público Federal, o dinheiro emprestado a Affonso, cerca de R$ 30 mil em valores atuais, foi mais tarde repassado para Cacciola e parentes do antigo proprietário do Marka.
"A pena revela a vontade de pegar Cacciola como exemplo", acusou Fragoso. "Em um clima isento, esse processo seria um processo morto", afirmou o advogado. Segundo a defesa, Affonso apenas usou o crédito especial de sua conta de cliente do Marka, e desta mesma conta saiu o dinheiro para a quitação de dívidas do publicitário com Cacciola, de quem era amigo.
Ele criticou o fato de o juiz ter partido do princípio de que o depoimento de Affonso no processo foi mentiroso, para condenar seu cliente. Fragoso lembrou que o próprio Conselho do Sistema Financeiro Nacinal (SFN) do Banco Central (BC) absolveu Cacciola em processo administrativo, depois de ter denunciado o fato ao Ministério Público, que entrou com a ação na Justiça. "O juiz pasosu por isso correndo na sentença", afirmou.
Arma - Além do inquérito que investiga as circunstâncias da quebra do Marka, Cacciola é investigado na Polícia Federal (PF) pela apreensão de uma escopeta em seu carro, durante a operação de busca e apreensão em sua casa feita pela polícia com o Ministério Público Federal. A PF do Rio espera apenas o fim da perícia sobre as características da arma para enviar suas conclusões à Justiça.

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