Petrobras vai rever relação de beneficados com ajuda de custo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de fevereiro de 2000
Por Roberta Jansen 
Rio, 03 (AE) - A Petrobras anunciou hoje vai rever a relação dos beneficiados com a ajuda de custo destinada aos pescadores prejudicados pelo vazamento de 1,3 milhão de litros de óleo na Baía de Guanabara, no dia 18. A Federação de Pescadores do Estado vinha reclamando dos valores e dos beneficiados. Tomando por base relações fornecidas por associações de moradores e líderes comunitários, a estatal deixou de incluir muitos pescadores e acabou cadastrando pessoas que nunca viveram da pesca, pagando a elas de R$ 150 a R$ 500. "Eu recebi R$ 300", afirmou C. B., de 45 anos, faxineira de uma escola pública de São Gonçalo.
De acordo com a Federação de Pescadores, apenas 20% dos cadastrados pela Petrobras vivem da pesca - os demais estariam recebendo a ajuda de custo irregularmente. A empresa alegou que nenhuma entidade pesqueira dispõe de um cadastro atualizado e completo, por isso teve que organizar um rapidamente, com base nas informações das comunidades locais. A estatal disse ter exigido o testemunho das associações sobre a atividade profissional dos cadastrados, uma vez que o benefício se destina apenas a pescadores, caranguejeiros, sirizeiros, descarnadores e curraleiros.
"A Petrobrás cadastrou todo mundo da associação, não veio me perguntar quem era pescador", afirmou o presidente da Associação dos Pescadores e Moradores de Porto Velho, em São Gonçalo, Orivaldo Freire Alves. "Aqui temos 637 associados, mas apenas 200 vivem exclusivamente da pesca." Segundo Alves, no entanto, muitas pessoas têm outras profissões, mas fazem da pesca um complemento de seus rendimentos mensais. É o caso de J. S., de 60 anos, aposentado da Marinha. "Eu pesco de vez em quando para ter um dinheiro a mais", contou.
Alguns dos beneficiados, no entanto, sequer fazem da pesca um complemento de seus rendimentos mensais. Faxineira de uma escola pública de São Gonçalo, C. B. recebeu R$ 300 da Petrobras. "Fui direto para o supermercado comprar comida", contou. Ela ganha R$ 136 por mês para sustentar seis filhos e é conhecida na comunidade por suas campanhas de arrecadação de brinquedos, roupas e remédios para crianças carentes. "Você acha que eu estou errada de aceitar o dinheiro?", questionou. "A comunidade aqui é muito carente, todos vivem em função da praia e foram prejudicados."
"Segundo denúncias que recebemos, policiais, padeiros, agentes funerários e até açougueiros estão recebendo ajuda da Petrobras", contou o presidente da Federação de Pescadores do Estado, José Maria Pugas, que criticou a empresa por não ter usado o cadastro da federação. "Mas o desespero leva a isso são todos miseráveis", justificou. As comunidades atingidas pelo óleo no município de São Gonçalo são favelas sem calçamento nem saneamento básico, nos arredores das praias e dos manguezais.
A assessoria de imprensa da Petrobras informou que no pagamento do mês de fevereiro, que começou na quarta-feira, a empresa verificou que alguns dos beneficiados não eram pescadores e os cortou da lista. Para o próximo pagamento, em março, a relação será revista com base nas denúncias recebidas. A empresa está estudando ainda uma forma de ressarcir os comerciantes prejudicados pelo vazamento.


