Petrobras pode ter dado ajuda de custo a falsos pescadores indicados por traficantes
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2000
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 10 (AE) - A Petrobras reconheceu hoje que pode ter dado ajuda de custo a falsos pescadores indicados por traficantes de São Gonçalo e de Ramos, na zona norte do Rio, durante o trabalho de cadastramento das comunidades afetadas pelo vazamento de óleo na Baía de Guanabara, dia 18 de janeiro. Segundo o gerente-geral de administração da Petrobras, José Marques Filho, na lista de 5.327 nomes registrados pela empresa para ressarcimento, 1.800 foram identificados como "penetras". Ele admitiu, porém, que esse número pode ser maior.
"O trabalho de depuração continua e já encontramos outros falsos pescadores na relação dos que receberam a ajuda de custo", disse Marques Filho. "Entre eles podem ter alguns indicados por traficantes." O gerente, que também coordena o Módulo Comunitário do Planejamento Emergencial de Recuperação da Baía de Guanabara, disse que os funcionários da estatal foram obrigados a incluir na lista de ressarcimento os falsos nomes, sob ameaça de morte dos traficantes.
Em alguns casos, segundo ele, as relações eram entregues pelo próprio líder comunitário da região, a mando do chefe do tráfico."Nós não somos doidos de contrariá-los, por isso orientamos que todos fossem registrados por nossas equipes, para depois fazermos a depuração", explicou o gerente. As primeiras cotas de ajuda de custo - com valores entre R$ 150 e R$ 500 - foram pagas nos dias 3, 4, e 5 de fevereiro. Cerca de 3.200 pessoas receberam o dinheiro e a Petrobras gastou R$ 1,82 milhão.
Para não pagar mais aos "penetras" a estatal está fazendo o que o gerente chama de "confirmação": um funcionário da empresa vai até o endereço fornecido pelo pretendente à indenização para confirmar se ele é ou não pescador. "Foi através disso que descobrimos os 1.800 pescadores falsos", disse.
Incidentes - De acordo com Miguel Filho, em Ramos, os funcionários da Petrobras chegaram a ser expulsos do bairro, para onde só voltaram escoltados por policiais militares e cerca de 80 seguranças particulares. Outro incidente aconteceu na Praia da Luz, no Gradim, em São Gonçalo, onde cerca de 1.887 pessoas foram cadastradas. Lá, na última segunda-feira, o carro de uma locadora, com quatro funcionários contratados pela Petrobras, foi roubado.
"Eram pelos menos quatro assaltantes, porque cada empregado ficou com uma arma apontada para a cabeça", contou o gerente. Marques Filho não soube explicar porque a Petrobras não registrou o caso na delegacia.
Hoje o governador Anthony Garotinho afirmou que a Secretaria Estadual de Segurança em nenhum momento foi acionada pela empresa para apurar os fatos. "Mas se eles apontarem os bandidos nós prendemos", disse Garotinho.
Marques Filho considera as ameaças dos traficantes "fatos isolados". "Pior foi a desorganização que encontramos nos cadastros de filiados das comunidades de pescadores; praticamente tivemos que fazer tudo de novo", disse.


