São Paulo, 26 (AE) - Um governo do PT não deverá opor-se ao capital estrangeiro porque esse dinheiro é "indispensável ao desenvolvimento do País e à melhoria das condições de vida do povo trabalhador". Não se trata de promessa de campanha, mas, sim, do resultado de pesquisa feita com os delegados que participaram do 2.º Congresso Nacional do PT, de 23 a 28 de novembro, em Belo Horizonte (MG).
Detalhe: embora 63,1% dos entrevistados defendam o capital estrangeiro, 88,6% definem o partido como socialista e 73,9% acham que uma administração petista deve "negociar politicamente" o pagamento das dívidas interna e externa, "com base nos resultados de auditoria independente".
Prestes a completar 20 anos, que serão comemorados no dia 10 de fevereiro, o PT está diante de seu maior desafio: tornar-se alternativa de poder com um projeto que não peque pelo anacronismo. E sem abandonar princípios. Batizada de A Cara do PT 2000, a pesquisa foi realizada pelo cientista político Carlos Novaes e mostrou exatamente essas ambiguidades e dilemas do petismo. Foram ouvidos 375 dos 906 delegados presentes ao congresso - a maioria com idade entre 35 e 45 anos, curso superior (mesmo incompleto) e renda familiar acima de R$ 1 mil.
Para 76% dos que responderam ao questionário, o mercado não é um bicho-papão e sua extinção não deve ser nem mesmo uma meta. Apenas 19% discordaram da idéia de que o mercado, devidamente controlado, é indispensável ao funcionamento de qualquer sociedade. "Com essa pesquisa, fica claro que os petistas têm compreensão diferente sobre o que significa socialismo e o que deve rechear o vocábulo", afirma Carlos Novaes, um estudioso do PT desde 1986. Ele argumenta que nesse quiproquó existe "um misto de confusão e abertura de espírito".
Na avaliação do cientista político, é improvável que se possa construir o socialismo estimulando o capital estrangeiro. "Mas também é inegável que o partido busca uma alternativa para manter os ideais e compromissos com os trabalhadores sem recair nas propostas anacrônicas de rejeição às relações abertas com o resto do mundo."
¶ncora do ideário socialista, o fim da propriedade privada dos meios de produção é outro tema que divide o PT. O racha é evidente: para 46% dos entrevistados no congresso de Belo Horizonte, um governo petista deve estimular o processo que levará à extinção da propriedade privada dos meios de produção. Mas 50% discordam desse ponto de vista. "É a resposta que melhor espelha a divisão do PT, hoje, em duas grandes alas", resume Novaes.
O cientista político não vê incoerência no cruzamento desses dados. Nem mesmo quando a maioria dos petistas prega uma "negociação política" para o pagamento das dívidas interna e externa. Somente 1,1% dos entrevistados acha que o PT deve honrar os compromissos assumidos, sem auditoria, caso contrário enfrentaria mais problemas. E outros 23,4% defendem o não-pagamento das dívidas, alegando que elas já foram quitadas.
"O que tocou nessa resposta foi a campainha ideológica, mas é interessante salientar a baixíssima incidência de petistas considerando que não honrar os compromissos traria ainda mais problemas", avalia Novaes. De qualquer forma, ele observa que o PT está fazendo uma aposta: manter o capital estrangeiro no Brasil, mesmo admitindo mexer na estrutura de pagamento das dívidas ao assumir o poder. Mas anúncios assim não incentivam a fuga de capitais? "Ambiguidades desse tipo são próprias da política e de um partido em mudança, como o PT", diz Novaes.
Mesmo com o argumento de que o capital estrangeiro é bem-vindo, a maioria dos consultados acredita que um governo do partido só deve dar prioridade às relações com a América Latina (77,1%). Na outra ponta, 15% são favoráveis a incentivar o relacionamento com o Primeiro Mundo. Mais: Novaes constatou que diminuiu o número de petistas descrentes na social-democracia.
Em 1991, no 1.º Congresso do PT, em São Bernardo do Campo (SP), 51,5% dos presentes àquele encontro diziam recusar a social-democracia por entender que ela não superava a contradição entre o capital e o trabalho. No fim do ano passado, esse índice era de 39,8%. Já o porcentual dos que não vêem razão para enterrar a via social-democrata pulou de 10,6% para 24,7% entre 1991 e 1999.
"O crescimento desse último contingente é coerente com a defesa de reformas, que não questionam a existência da ordem capitalista", pondera Novaes. "Não se pode dizer, porém, que o PT caminhe para a social-democracia, mesmo porque esse pacto vem dando sinais de esgotamento."

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