Petistas ajudam na campanha de Tabaré Vázquez Do enviado especial Lourival Sant'anna
Montevidéu, 28 (AE) No fim de tarde ensolarado de sábado, uma bandeira do Partido dos Trabalhadores tremulava na Plaza del Entrevero, centro de Montevidéu. Com uma camiseta de Che Guevara, empunhava a bandeira o professor de espanhol Humberto Costa, de 26 anos, que nasceu em Montevidéu, mas mudou-se com sua família para a cidade gaúcha de Pelotas em 1988.
"A esquerda deve agir em escala latino-americana e mundial, porque as fronteiras foram ditadas pela geopolítica imperialista", disse Costa, que embarcou num ônibus em Pelotas à meia-noite de sexta- feira e chegou a Montevidéu às 8h30 do sábado. "Os excluídos sociais são os mesmos e os cantegriles (cortiços) daqui são iguais às favelas de lá."
Costa, que percorreu 700 quilômetros só para ajudar na campanha de Tabaré Vázquez no fim de semana decisivo, já teria de estar de volta ao trabalho nesta segunda-feira. "Vou saber o resultado na estrada." Costa não está sozinho. Um ônibus trouxe 38 petistas de Porto Alegre, que, na noite de sábado, participaram de um "bandeiraço" na 18 de Julio, a principal rua do centro de Montevidéu.
No diretório regional do PT em Porto Alegre há uma sala para os petistas de origem uruguaia, entre os quais está o presidente da gráfica do Estado, Gustavo Melo, que votou hoje, em Montevidéu. A estreita cooperação entre o PT gaúcho e a Frente Ampla vem da época em que o hoje governador Olívio Dutra era prefeito de Porto Alegre e Tabaré Vázquez, de Montevidéu (1990-94). Ambos aplicaram o "orçamento participativo" nas respectivas cidades.
Mas foi também no nível nacional que o PT nutriu grande expectativa quanto a uma eventual vitória da Frente. Na avaliação do partido, ela comporia um "cinturão antineoliberal" em torno do Brasil, que teria começado a formar-se com a eleição do social- democrata Fernando de la Rúa, em outubro, na Argentina, e poderia completar-se com a do socialista Ricardo Lagos, em dezembro, no Chile.
A militância da Frente, organizada e ferrenha, lembra a petista. Não que os colorados não tenham sua militância. No fim da tarde de sábado, no comitê de Batlle, o advogado Daniel Chucarro, cuja avó era da cidade gaúcha de Bagé, corria de lá para cá, ajudando a organizar o embarque de eleitores que moram em Montevidéu e votam no interior.
"O Partido Colorado é democrático, libertário e republicano, enquanto que a Frente reúne partidos marxistas, violentos e intolerantes", afirmou Chucarro. "Minha família é toda colorada e batllista", acrescentou ele, numa referência à tradição, no partido, da família do candidato, cujo pai, Luis, e tio-avô, José, foram presidentes.
A tradição batllista, que passa de geração a geração de eleitores e rende muitos votos ao Partido Colorado, está associada a um Estado forte, onipresente e paternalista. Curiosamente, hoje, esse modelo é mais identificado com o programa da Frente do que com o do Colorado, que se converteu às convicções liberais.
Mas ainda há traços do velho coloradismo. Enquanto Costa falava, centenas de eleitores acotovelavam-se no amplo comitê de campanha, aguardando o chamado para embarcar para suas cidades de origem para votar.
O transporte é uma das peças vitais da engrenagem do Partido Colorado. Hoje à tarde, na sede da agremiação, organizadores da campanha mobilizavam-se para conseguir substituto para um caminhão carregado de eleitores, que quebrou no Cerro, periferia de Montevidéu.
Em contrapartida, o clima na sede do partido, imponente palacete construído em 1830, era morno. A atividade de campanha está concentrada no comitê de Batlle, refletindo a divisão que existe no partido, dominado pelo presidente Julio María Sanguinetti. A facção de Batlle é minoritária e não detém controle da máquina partidária.





