Pesquisas de boca-de-urna e contagem paralela aumentam confusão Do enviado especial Roberto Lameirinhas
Lima, 10 (AE) - A diferença dos números entre as pesquisas de boca-de-urna realizadas por três institutos peruanos e o resultado da contagem paralela realizada pelas mesmas empresas acrescentou, no domingo à noite, mais tensão ao já confuso processo eleitoral do Peru.
Os institutos Apoyo, Datum e CPI apontaram, na boca-de-urna, a vitória do candidato do movimento Peru Possível, Alejandro Toledo, sobre o presidente peruano, Alberto Fujimori, da Aliança Peru-2000. Horas depois, quando deram por encerrada a apuração paralela, a situação inverteu-se: Fujimori foi apontado como o vencedor do primeiro turno.
Num testemunho em favor dos institutos, a Associação Cívica Transparência, órgão da sociedade civil peruana destinado a fiscalizar todo o processo eleitoral, obteve números parecidos em sua própria contagem paralela.
"Tecnicamente, a diferença entre esses números pode ser considerada normal", declarou à Agência Estado Giovanna Peñaflor, diretora do Instituto Imasen, que fez pesquisas durante a campanha eleitoral, mas optou por não realizar nenhum estudo próprio sobre os resultados. "A coincidência entre os números das empresas e da Transparência indicam que o método estava correto, o erro foi comparar relatórios de boca-de-urna com contagens paralelas; o certo, para que se tenha um parâmetro de confiabilidade, é comparar os números finais dos institutos com os da Transparência", disse ela.
Giovanna afirmou que o primeiro boletim oficial do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe) deveria fornecer dados seguros para que se fizessem projeções sobre o resultado final. A entidade tinha prometido fornecer um boletim, abrangendo a apuração de 15% a 25% dos votos até a meia-noite de segunda-feira, mas seu presidente, José Portillo, apresentou os resultados de mesas eleitorais isoladas. "O Onpe mostrou-se ineficiente ao apresentar resultados isolados, quando se esperava que tivesse pelo menos os números finais da região eleitoral de Lima."
A diretora do Imasen deu detalhes sobre a diferença da técnica de pesquisa de uma boca-de-urna e da apuração paralela. "Na boca-de-urna, o eleitor diz ao pesquisador aquilo que pretende fazer na cabine de votação, enquanto a contagem paralela reflete uma situação fechada e se limita a somar números constantes nos mapas eleitorais."
Ela explica que a situação de dúvida que cercou o processo eleitoral pode ter influenciado os números da boca-de-urna. "São procedentes e justificados os relatos de que essa não foi uma campanha justa e equitativa e isso inclui um fator novo no processo de pesquisa", declara. "O eleitor de Toledo era um eleitor que temia a fraude e seria natural que quisesse registrar esse voto, buscando os pesquisadores nos locais de votação."
Giovana sustenta que outro fator que pode ter levado a boca-de-urna à distorsão do resultado foi o voto "envergonhado" pró-Fujimori. "É possível que muitos eleitores que não votariam em Fujimori tenham sido levados a fazê-lo por medo de que a violência terrorista e a inflação voltassem."
A diretora do Imasen, no entanto, diz que o elemento de surpresa verificado na diferença entre a boca-de-urna e a contagem paralela foi a inversão de tendência. "Historicamente no país, há diferenças de pontos entre os dois tipos de estudo, mas não das tendências. As diferenças de porcentagem aumentam ou diminuem, mas não há inversão entre o primeiro e o segundo colocado."





