O trabalho de pesquisadores e cientistas da UEL (Universidade Estadual de Londrina) pode ajudar a melhorar a produtividade e a abrir novas frentes de mercado para a milenar cultura do bicho-da-seda. Pesquisas realizadas na instituição desenvolvem produtos cosméticos, bioensumos específicos para a cultura, técnicas de reprodução de mudas de amoreiras in vitro e tecnologias para enfrentar os efeitos do aquecimento global sobre a lagarta que produz a seda. Foi isso que sericicultores do Paraná puderam aprender no evento “Silktech: A Seda na Era da Biotecnologia”, que aconteceu na tarde do último sábado (5), no Pavilhão Smart Agro, dentro da programação técnica da ExpoLondrina. O painel foi promovido pela ABRASEDA (Associação Brasileira da Seda), Bratac Seda, Seda Brasil, UEL e SETI-PR.

Um projeto de mestrado desenvolvido na UEL está transformando uma proteína presente no casulo do bicho-da-seda em sérum facial, produto que ajuda a rejuvenescer a pele. A pesquisadora de Cosmetologia do curso de Farmácia da Universidade, dra. Audrey Alesandra Stinghen Garcia Lonni, apresentou no evento o trabalho desenvolvido na universidade na palestra “Fibroína da Seda: Inovação e Benefícios na Cosmetologia”. Segundo ela, a fibroína é uma proteína fibrosa, rica em aminoácidos, produzida pelo bicho-da-seda que tem grande importância para a cosmetologia e para a saúde. “Ela tem um ótimo valor biológico que confere propriedades hidratantes, regenerantes e antioxidantes para a pele”, afirma.

Audrey diz que o sérum facial desenvolvido por sua aluna de mestrado, Maria Vitória, está em fase de protótipo e já foi apresentado 34º Congresso Mundial de Cosmetologia da IFSCC, realizado no ano passado em Foz do Iguaçu. A pesquisadora afirma que o produto despertou bastante interesse, mas que ainda não se concretizou nenhuma parceria com alguma indústria que possa produzi-lo em escala comercial. “Mas estamos otimistas, pois além da qualidade já comprovada, ele atende requisitos do mercado, que está em busca de produtos de origem natural”, comenta.

Audrey Lonni, pesquisadora de Cosmetologia do curso de Farmácia da UEL
Audrey Lonni, pesquisadora de Cosmetologia do curso de Farmácia da UEL | Foto: Ricardo Maia/Divulgação

Segundo ela, o mercado para o produto é enorme, com a indústria cosmética Brasil ocupando o terceiro lugar no mundo, chegando a movimenta R$ 80 bilhões por ano. “E este mercado está em crescimento vertiginoso”, afirma. A pesquisadora observa que isso abre a possibilidade de novos mercados para os produtores de bicho-da-seda do Paraná, que respondem por 80% da produção nacional. Isso porque, de acordo com Audrey, esses sericicultores teriam a oportunidade de vender para a indústria cosmética casulos que hoje não são aproveitados pela indústria de fiação da seda.

Já em outro painel, os produtores de bicho-da-seda puderam ver que a cultura já sofre impactos negativos do aquecimento global. A informação foi apresentada pela pesquisadora e professora do Departamento de Biologia da UEL, dra. Renata da Rosa durante a palestra “Aquecimento Global e Sericicultura: Impactos Genéticos no Bicho-da-Seda e Tecnologias para um Futuro Sustentável”. Renata afirma que estudos desenvolvidos por sua equipe de pesquisadores mostrou que a elevação das temperaturas diminui a imunidade da lagarta, o que eleva os índices de mortalidade do plantel. Além disso, ela diz que, sob o forte calor, o bicho-da-seda apresenta redução de 2% na produção de fios de seda que formam o casulo. “Parece pouco, mas quando o produtor vende o casulo ele recebe por peso, e com o casulo menor o peso no total será menor e consequentemente seus ganhos também”, observa. Essa perda também afeta a indústria, segundo a pesquisadora, pois um casulo menor rende menos fio de seda.

Renata afirma que a pesquisa também atua na busca maneiras de mitigar os impactos do aquecimento global na produção. “Seja por alterações na construção dos barracões que abrigam as lagartas, seja na climatização destes espaços, no desenvolvimento de linhagens de bicho-da-seda mais resistente ao calor, bem como aplicação de formas de energias alternativa. Buscamos alternativas que possam ser adotadas com custos mais baixos pelo produtor e que ajudem a reduzir a temperatura nos criatórios”, diz.

A pesquisadora destaca que as plantações de amoreiras, que servem de alimento para a lagartas, também já sofrem impacto com a elevação da temperatura global. “A irrigação pode ajudar as plantas a se desenvolverem melhor”, comenta.

Imagem ilustrativa da imagem Pesquisas da UEL buscam soluções sustentáveis para a sericicultura
| Foto: Arquivo Folha

O evento também contou com a participação do professor da UEL, dr. Admilton Gonçalves de Oliveira Júnior, que apresentou a palestra “PD&I em bioinsumos customizados para a sericicultura”. A pesquisa em andamento sobre o tema sob sua coordenação busca criar a insumos de base biológica que sejam específicos para a cultura do bicho-da-seda, como defensivos para controle biológico de pragas que atacam as amoreiras. Segundo ele, a pesquisa busca produtos que beneficiem o meio-ambiente e as pessoas que trabalham com essa atividade.

Os produtores também conheceram as pesquisas que são desenvolvidas pelo professor da UEL, dr. Ricardo Farias, que apresentou a palestra “Biotecnologia para o Cultivo de Mudas in Vitro de Amoreiras“. Em sua fala, Farias mostrou as vantagens da técnica, que já é utilizada por ele há mais de 25 anos para a produção de orquídeas, mas também aplicada para a produção de mudas de mudas diversos alimentos. A tecnologia, segundo ele, permite a produção de milhares de mudas em curto espaço de tempo de maneira continua, oferecendo ao produtor amoreiras mais homogêneas, livres de nematoides, fungos e bactérias.

mockup