São Paulo, 25 (AE) - Centenas de levantamentos, feitos em todo o mundo, apontam a incompatibilidade entre bebida e o volante. Há cerca de dois anos, a Associação Brasileira dos Departamentos Estaduais de Trânsito (Abdetran) realizou uma pesquisa nas cidades de Salvador, Recife, Brasília e Curitiba. Foram colhidas informações entre mais de 1,1 mil vítimas de acidentes de trânsito internadas em hospitais ou cujos corpos foram encaminhados para os Institutos Médico-Legais (IML).
No total, 61% dos acidentados tinham ingerido bebida alcoólica. Desses, 27,2% tinham uma quantidade de álcool no sangue superior à permitida pelo Código de Trânsito Brasileiro - mais de dois copos de cerveja, duas taças de vinho ou uma dose de bebida destilada (uísque, vodca, entre outros). No primeiro semestre deste ano, o Instituto Médico-Legal de São Paulo analisou a presença de etanol no sangue de 3.311 vítimas de mortes violentas. Das 354 que morreram no trânsito, 45,44% apresentavam a substância. Pesquisa - Uma pesquisa feita entre jovens paulistanos prestes a obter a carteira de habilitação demonstrou que a maioria admitia a possibilidade de dirigir após ter bebido três drinques, caso tivesse ido a uma festa ou a um bar. O levantamento foi feito pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com o Centro de Estudos do álcool da Universidade Rutger, de New Jersey, nos Estados Unidos.
Outro dado que chama a atenção no levantamento é o fato de, em geral, os indivíduos apresentarem um nível baixo de conhecimento das leis e poucos acreditarem que realmente sofreriam penalidades se infringissem a legislação. Dos 2.004 jovens entrevistados, 74% duvidavam que as pessoas que se envolvem em infrações de trânsito motivadas por álcool realmente são punidas.
O estudo da Unifesp traz uma série de dados sobre álcool e trânsito em vários países. Nos Estados Unidos, em 1996, mais de 14 mil pessoas morreram em acidentes de trânsito provocados pelo uso de álcool. Estima-se que, em termos econômicos, acidentes desse tipo tenham custado US$ 115 bilhões em 1990. Na Nova Zelândia, em 1987, o consumo de álcool causou cerca de 20% das mortes de pessoas com idade entre 15 e 34 anos, principalmente nas estradas. Reflexos - "Não dá para beber e dirigir", conclui o presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Luiz Carlos Sobania. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Acidente e Medicina de Tráfego (Abramet), Fábio Racy, o motorista alcoolizado passa por duas etapas. "A primeira é a da excitação, quando ele se sente o todo-poderoso", afirma. "Depois vem a depressão, a sonolência e a diminuição dos reflexos". Segundo o coordenador da Unidade de álcool e Drogas da Unifesp, Ronaldo Laranjeira, o motorista fica mais "ousado" depois de beber. "Ele vê a placa, mas não a leva em consideração", explica. "Ou simplesmente não vê o outro carro".
Ciente de que não deveria estar bebendo já que pretendia dirigir em seguida, o aposentado Arnaldo Murasse tomava uma cerveja durante o almoço, na semana passada, no Expresso 36, um restaurante da Rodovia Raposo Tavares. "Sou contra beber e dirigir", afirmou, sob os olhares repressores da mulher, Irene Murasse. "Mas é uma cervejinha mais leve". Num restaurante ao lado, o Ninos Grill, o assessor sindical Reinaldo Coelho também usava o argumento da "leveza". "O segredo é você analisar", explicou. "Vinho, por exemplo, vai te pesar?" (Andréa Portella)

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