Pesquisadores dizem que termoelétricas dos EUA liberam mercúrio
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domingo, 23 de maio de 1999
Por Eliane Azevedo 
Rio, 24 (AE) - O grande vilão na contaminação do meio ambiente por mercúrio não está escondido nos garimpos da Amazônia ou nas indústrias sem fiscalização do Terceiro Mundo, mas à vista de todos, na mais importante economia do mundo. Para pesquisadores brasileiros reunidos no Rio na 5ª Conferência Internacional do Mercúrio como Poluente Global, a liberação de mercúrio na atmosfera pelas termoelétricas dos Estados Unidos é o principal fator mundial de risco de poluição por uma das substâncias mais tóxicas do planeta.
"As termoelétricas americanas lançam no ar cerca de 4,5 mil toneladas de mercúrio por ano", afirmou um dos coordenadores da conferência, Juliano Peres Barbosa, do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Segundo ele, o carvão mineral usado por essas indústrias libera resíduos do metal, que são espalhados pelo vento por quilômetros de distância. "Os grupos americanos preferem estudar o problema da contaminação na Amazônia do que discutir o assunto com as indústrias elétricas dos Estados Unidos", apontou o professor Olaf Malm, do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "É preciso uma pressão internacional sobre as termoelétricas."
Malm coordena um grupo que há 13 anos estuda os efeitos da contaminação por mercúrio de rios e peixes da Amazônia. Embora regiões como o Alto Tapajós apresentem contaminação de peixes carnívoros (como tucanaré e surubim) em até dez vezes acima do nível aceitável pela legislação brasileira, ele garantiu não haver nenhum caso conhecido, na região, do mal de Minamata - a grave doença neurológica provocada por altos níveis de mercúrio no organismo. Em 1998, o pesquisador japonês Masazumi Harada, um dos principais especialistas na doença, afirmou ter encontrado doentes no povoado ribeirinho de São Luís do Tapajós (PA). "É muito difícil diagnosticar o mal de Minamata, ainda mais na Amazônia, onde doenças virais e mesmo o tratamento contra a malária, altamente tóxico, podem provocar sequelas neurológicas", disse.
A coordenadora de Meio Ambiente do Instituto Evandro Chagas, Elizabeth de Oliveira Santos, que lidera outro grupo de estudos, contou que, em abril, uma equipe da instituição esteve no povoado e avaliou cerca de 300 moradores, o equivalente a 65% da população. Embora haja crianças com problemas dermatológicos não-diagnosticados, os pesquisadores afastaram a hipótese de que seja mal de Minamata. "O que podemos dizer com certeza é que foram encontrados altos teores de mercúrio no sangue das populações ribeirinhas", afirmou. "Não há sinais clínicos de doença, mas os efeitos do mercúrio podem permanecer por mais 50 anos." Segundo Malm, são as condições ambientais, mais do que os fatores externos, que determinam os níveis de poluição. "No Rio Negro, por exemplo, não há garimpo, mas foram constatados altos índices de contaminação do pescado", disse. "O rio tem águas ácidas, que facilitam o acúmulo do mercúrio que existe na natureza normalmente." Por isso, defende, o conhecimento da biodiversidade da Amazônia e dos hábitos culturais e alimentares das populações da região é indispensável para qualquer estratégia de combate à poluição por mercúrio.


