Pesquisadores criam 'alimentos inteligentes'
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domingo, 24 de abril de 2005
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
Que tal ''adquirir'' saúde na feira ou nas gôndolas de supermercados? Essa é a grande promessa dos alimentos funcionais - soja, aveia, tomate e outros, que têm propriedades já comprovadas de benefícios para a saúde. Em Londrina, pesquisadores buscam novas formas de facilitar o consumo e criam os ''superalimentos'' ou os ''alimentos inteligentes'', produtos enriquecidos com substâncias funcionais.
Segundo a professora Maria Victória Grossmann, do Departamento de Tecnologia de Alimentos e Medicamentos da Universidade Estadual de Londrina (UEL), os funcionais são aqueles que além de oferecerem nutrição, também contribuem para melhorar o desempenho fisiológico e diminuir os riscos de doenças. ''Não podemos falar em prevenção, porque há um conjunto de outros fatores, como a genética, que influenciam no aparecimento de doenças. Mas podemos falar na diminuição de riscos'', afirma.
Fazem parte dessa lista de alimentos funcionais o tomate, que tem no licopeno um princípio bioativo com ação antioxidante e que diminui o risco do homem que o ingere de desenvolver câncer de próstata. A aveia, com as betaglucanas, um tipo de fibra especial solúvel, que tem ação comprovada na diminuição do colesterol e do risco de diabetes.
E a soja, que com um alto teor de proteínas age como um fator para diminuição do colesterol, além das isoflavonas, que colaboram para diminuir os efeitos da menopausa e para reduzir o risco de câncer de mama e próstata. Também é fonte de fibras e ácido linoleico, que aumenta a massa muscular, e contém saponinas e ácido fítico, substâncias que reduzem o colesterol e ajudam a reduzir o risco de câncer. Os chamados peptídeos bioativos ajudam a retardar o envelhecimento e a emagrecer.
De acordo com a presidente da Sociedade Brasileira de Alimentos Funcionais (SBAF), Jocelem Mastrodi Salgado, cerca de um terço dos casos de câncer está relacionado à dieta. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o aumento global da população e o estilo de vida ocidentalizado podem resultar num aumento de 50% na incidência de cânceres nas próximas duas décadas. Destes, um terço pode ser prevenido principalmente com mudanças de hábitos alimentares.
A grande vantagem do alimento funcional é que ele não é um medicamento e por isso pode ser consumido sem controle ou orientação médica. No entanto, explica Maria Victória, nos produtos naturais o princípio ativo pode estar presente em quantidades pequenas, o que implica em um consumo alto para se obter seus benefícios. ''Isso faz com que hoje haja uma procura por alimentos processados onde se consiga concentrar o princípio ativo'', explica. Além disso é preciso adequar os alimentos funcionais aos hábitos dos consumidores nos meios urbanos e aos interesses econômicos da indústria e agregar compostos benéficos em produtos de fácil consumo.
Daí a quantidade de pesquisas para buscar os alimentos inteligentes. ''Na área genética, por exemplo, há trabalhos para desenvolver cultivares com princípio ativo mais concentrado. No Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) há uma pesquisa que busca uma aveia com maior concentração de betaglucanas'', exemplifica. Desde o ano passado, no Paraná, foi formada uma rede de alimentos funcionais, que agrupa pesquisadores de diversas instituições com o objetivo de fazer uma radiografia do setor no Estado.
Centros de pesquisas do setor agrícola, como a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa), trabalham para desenvolver variedades de alimentos funcionais com alta concentração de componentes benéficos, como o tomate com maior teor de licopeno, ou para melhorar o paladar. O alho, por exemplo, é tido como eficiente na prevenção de inúmeras doenças, inclusive o câncer gástrico, mas deve ser consumido cru, pois perde suas principais substâncias benéficas a uma temperatura de 50 graus. O principal problema é o sabor forte. ''A pesquisa agronômica conseguiu desenvolver uma variedade com sabor atenuado, que não deixa gosto na boca'', afirma Jocelem Mastrodi Salgado.
Na UEL, Maria Victória trabalha no desenvolvimento de uma barra de cereais com inulina, oligofrutose e goma acácia, três fibras prebióticas que tem função de favorecer o crescimento de bactérias benéficas para o intestino. Há ainda, segundo ela, pesquisas para fermentação da farinha de soja para aumento do teor de isoflavona, e o desenvolvimento de um processo para aumentar o teor de prebióticos a partir da fibra de milho.
Na Universidade Norte do Paraná (Unopar), pesquisadoras também desenvolvem projetos de bolos e bolachas enriquecidas com soja e aveia, e um doce de leite com inulina, indicado para a diminuição de constipação intestinal (ver texto n página).(Com Agência Estado)


