Pesquisador do MIT aponta mudança nas relações de trabalho
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sexta-feira, 26 de março de 1999
Por Gecy Belmonte 
Brasília, 27 (AE) - A virada do século será marcada por muitas incertezas nas relações trabalhistas decorrentes de mudanças que já começaram a ser introduzidas - de forma bastante heterogênea - pelos países industrializados, e que estão ocorrendo mais depressa do que as instituições que atuam na área do trabalho. A avaliação é do pesquisador Richard Locke, do Sloan School of Management do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachuts), uma das 10 mais conceituadas instituições norte-americanas no setor e que esteve em Brasília nesta semana participando de seminário promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre o futuro da indústria no próximo século.
Segundo o pesquisador do MIT, algumas tendências já identificadas nas mudanças das relações de trabalho iniciadas pelos Estados Unidos, por exemplo, caminham na direção da extinção do emprego estável e de longo prazo e na criação de um novo sistema de remuneração, vinculado à produtividade e não à função. Há também uma tendência de que o trabalho seja marcado por uma clara centralização gerencial, afirmou ele.
Locke esclareceu, contudo, que ainda não se tem segurança sobre quem ganha ou perde na comparação entre o modelo tradicional de relações trabalhistas e as inovações que estão sendo praticadas por muitas empresas nos países industrializados. "As relações de emprego, hoje, são muito mais instáveis. O antigo emprego de longo prazo e tempo integral está sendo trocado pelo emprego parcial, de curto prazo, regido por contratos de contingência", alertou.
Com relação ao setor industrial, o pesquisador do MIT disse que as avaliações feitas em alguns segmentos indicam que as empresas que ousam estão obtendo os resultados desejados. Conforme ele, comparações feitas entre empresas do setor de aço dos Estados Unidos que usam o modelo tradicional e hibrído e o reformulado, mostram que estas últimas registraram ganhos de competitividade. Pesquisa feita com empresas do ramo de vestuário que fabricam peças idênticas também demonstrou que quem optou pelo trabalho modular e em equipe, seguindo a nova tendência, aumentou a sua produtividade em 30%.
As mudanças introduzidas no mundo do trabalho, provocadas pela revolução tecnológica e pela globalização, exigem, por sua vez, que as nações emergentes invistam pesado em educação, segundo importantes especialistas reunidos pela Confederação Nacional da Indústria para discutir o futuro da indústria no século XXI.
Para o historiador norte-americano David Landes, professor da Universidade de Harvard e autor do best seller "A riqueza e pobreza das nações", por exemplo, a capacidade de as nações em desenvolvimento ganharem seu espaço e terem condições de competir em um mundo globalizado está diretamente ligada a sua capacidade de assimilar conhecimento dos países desenvolvidos e aprimorá-los.Landes disse que a globalização exige que as nações do terceiro mundo não só absorvam mas tenham capacidade de criar para ter condições de competir no mercado internacional. "Para se desenvolverem, esses países precisam perceber que a educação é condição básica para que a população assimile as tecnologias modernas".
Conforme ele, os governos das nações mais pobres precisam oferecer atrativos para ter acesso ao conhecimento dos países desenvolvidos. E, para isso, "não basta ter uma mão-de-obra abundante e barata, ela precisa ser instruída", ressaltou. Além disso, salientou que os países pobres precisam investir em infra-estrutura e dar condições para que os projetos se desenvolvam.
Opinião semelhante tem o economista do Banco Mundial (BIRD), Carl Dahlman, que também esteve entre os convidados do seminário da CNI. Segundo ele, é preciso estar atento ao fosso educacional e tecnológico existente entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento, especialmente no caso do Brasil. "Esta brecha pode resultar não só em um maior distanciamento entre países ricos e pobres, como pode intensificar as tensões sociais nas sociedades menos desenvolvidas", afirmou.
O economista do BIRD alertou para as gritantes diferenças educacionais e de infra-estrutura entre as nações ricas e algumas emergentes, como o Brasil. Na avaliação dele, o Brasil tem uma estratificação educacional muito baixa, tanto no ensino básico como no médio e superior, ao contrário dos países asiáticos. "Mesmo no ensino superior, as mudanças foram muito pequenas nos últimos 20 anos", observou.
Dahlman disse que o quadro educacional do Brasil é incompatível com a sua posição de décima maior base industrial do mundo. Na opinião dele, o fato de o Brasil estar atrasado em termos educacionais e, consequentemente tecnológico, faz com que o País tenha a sua inserção lenta no quadro da globalização mundial. Afirmou que maiores níveis educacionais são fundamentais para que uma sociedade absorva mais tecnologia e ingresse na era do conhecimento. Destacou ainda a importância do financiamento nesse sentido, dizendo que em países como a Coréia do Sul e Taiwan, dois terços do ensino foram financiados nos últimos anos pelas famílias e pelas empresas.
O vice-presidente da CNI e presidente do Conselho de Política Industrial e Desenvolvimento Tecnológico da entidade, José de Freitas Mascarenhas, afirma que as discussões feitas com os especialistas no seminário sobre a indústria do futuro mostram que o Brasil - governo e sociedade - não podem mais adiar grandes investimentos em educação. Além da educação, ele diz que para ingressar no século XXI em sintonia com os novos tempos, o País precisa ainda trabalhar muito outras questões para se adequar à modernização. Entre as tarefas a serem feitas, cita a necessidade de avançar na flexibilização das organizações e instituições, especialmente no campo trabalhista e no aprimoramento da tecnologia e gestão das empresas. Ressaltou ainda ser importante ter o domínio de produtos e processos para que o País tenha acesso à globalização da economia.


