Pesquisador diz que aumento do mínimo não diminui pobreza
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segunda-feira, 27 de março de 2000
Por Eliane Azevedo 
Rio, 28 (AE) - O aumento do piso da Previdência Social para 151 reais não diminuirá a pobreza no País e, dos cerca de R$ 3 bilhões a mais necessários para pagar o salário mínimo a aposentados e pensionistas, apenas 14% irão parar nos bolsos de quem é pobre. Os dados são do pesquisador Ricardo Paes de Barros
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e foram apresentados nos últimos dias aos deputados da Comissão do Salário Mínimo e ao Ministério da Previdência Social.
"O aumento na Previdência é um meio inacreditavelmente pouco eficiente de combate à pobreza", afirma Barros. A questão
segundo ele, não está na dimensão do reajuste do mínimo - se fosse para 180 reais, como pleiteava a aliança PFL-PT, o impacto na redução da pobreza seria de apenas 1,5 ponto porcentual -, mas no fato de que os idosos formam um grupo que ele classifica como "menos vulnerável" à miséria do que o restante da população.
Ao contrário do que reza o senso comum, o estudo de Barros mostra que os mais velhos são mais bem assistidos pelo governo do que as crianças. O trabalho constata que, na faixa de etária até 10 anos, há duas vezes mais crianças pobres do que idosos. "Isso significa que, para cada idoso que vive com um salário mínimo, há dez crianças que vivem com um décimo do salário mínimo", pontua.
Barros usou os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 1997 para investigar como se situavam os idosos dentro da distribuição de renda no País. Ele descobriu que, enquanto 39% dos brasileiros de até 59 anos estavam abaixo da linha da pobreza, no grupo com 60 anos ou mais, os pobres eram praticamente a metade: 23%. Um entre cada dez brasileiros é idoso, mas um entre cada 20 pobres tem mais de 60 anos.
O conceito de pobreza do Ipea está numa tabela que varia de acordo com as regiões brasileiras e situa a linha entre 80 e 100 reais per capita. Dentro deste critério, para Barros, são poucos os idosos muito pobres. "É como se eles tivessem uma renda mínima", compara. Essa renda, gerada pelo sistema previdenciário, é transferida para o restante da família: se os idosos pudessem viver isoladamente com os rendimentos, apenas 11% deles seriam pobres. Mas, se a renda deles for retirada do cálculo total da família, 72% dos mais velhos ficariam abaixo da linha da pobreza. "As famílias com idosos têm renda mais alta do que as com crianças", conclui Barros.
Para ele, os dados apontam para uma deformação na política social do governo. "Será que o governo é pró-idosos e contra crianças?", provoca.
Ele defende programas como os de bolsa-escola, que promovem algum tipo de distribuição de renda para crianças. "Existe uma mentalidade perversa de que não se pode dar 20 ou 30 reais para um pobre, que os programas só servem se garantem um salário mínimo", lamenta.


