São Paulo, 09 (AE) - Na maior cidade do País, política ainda é sinônimo de coronelismo. É esse o quadro de São Paulo que aparece em tese do programa de pós-graduação da Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC). No lugar de partidos políticos e propostas, o trabalho mostra uma cidade em que a maioria dos vereadores busca prestígio individual. Para alcançar os objetivos, trocam favores com eleitores e com o prefeito, num jogo em que a população é sempre a maior prejudicada.
A tese foi desenvolvida entre 1996 e 1999 e analisa as administrações desde 1979. O enfoque do trabalho, realizado por Marco Antonio Carvalho Teixeira, é a maneira como as administrações regionais foram usadas pelos prefeitos, em forma de "moeda", para solucionar conflitos com o Legislativo. A análise mais profunda foi feita sobre as gestões do ex-prefeito Paulo Maluf (PPB) e de Celso Pitta (PTN). "O resultado surpreendeu porque se imaginava que o clientelismo fosse um fenômeno das cidades mais atrasadas", conta Teixeira.
Segundo ele, essa cultura política sobrevive porque o poder público não consegue atender a população de maneira adequada. "As pessoas acabam preferindo procurar o vereador, que é quem comanda a regional". O trabalho de Teixeira cita alguns vereadores como exemplos de parlamentares que receberam administrações regionais em troca de apoio e conseguiram crescer politicamente. Um deles é Toninho Paiva (PFL). Em 1992, na gestão Maluf, ele controlou as regionais de Ermelino Matarazzo e da Penha, ambas na zona leste. Ainda no PL, candidatou-se à reeleição em 1996 e sua votação, nessas áreas da cidade, cresceu significativamente.
Na região de Ermelino Matarazzo, o número de votos passou de 562 para 21.238. Na Penha, de 651 para 12.767. Hoje, ele controla a Mooca. "A regional só ajuda um candidato se ele tiver honestidade", afirmou. Ele assegura que nunca fez favores em troca de votos. "Eu nunca dei um tijolo". Paiva garante que só ajudou pessoas com problemas de saúde. "Pedi para uns amigos médicos", disse. "Mas isso não é clientelismo, é a falência da saúde".
O vereador Dito Salim (PPB) é outro exemplo. Em Itaquera
também na zona leste, onde comanda a regional, é conhecido por moradores - como o guardador de carros Sebastião dos Santos - como "pau para toda obra". Causas - A conclusão do trabalho aponta para duas causas dessa cultura política, além da ineficiência do poder público: legislação partidária e condições socioeconômicas. "A lei não pune a infidelidade partidária", disse Teixeira. "Os prefeitos não negociam com os partidos, mas oferecem benefícios aos parlamentares, em troca de apoio". A tese cita nomes. "Nelo Rodolfo, José Índio e Paulo Roberto Faria Lima foram para o PPB por conveniência".
O especialista em direito eleitoral Fernando Augusto Fontes concorda com a tese. "Se nós tivéssemos partidos fortes, os candidatos não usariam as legendas por questão de oportunidade". O instrumento para mudar a situação é a reforma política, parada no Congresso. Teixeira também concluiu que as condições de vida da população facilitam a troca de favores. Todos os dias, os corredores da Câmara estão cheios de gente em busca de ajuda.
"Setenta por cento quer emprego ou cesta básica", afirmou o chefe de gabinete do vereador Salim Curiati Júnior (PPB), Maurício Martins. Mas há de tudo. Mudanças de nomes de rua, legalização de loteamentos e vagas em creches.

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