Pesquisa sobre malária do Instituto Oswaldo Cruz é premiada
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terça-feira, 22 de junho de 1999
Por Liana John 
São Paulo, 23 (AE) - O pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), Cláudio Tadeu Daniel Ribeiro, recebeu ontem (22), o Prêmio Sendas de Saúde, por suas pesquisas com malária, doença provocada por parasitas e transmitida por mosquitos. O prêmio é uma dupla exceção no contexto da produção científica brasileira. Primeiro, porque é um incentivo à pesquisa que parte da iniciativa privada para premiar pesquisadores sem relação direta com o ramo de atividade da empresa promotora, os Supermercados Sendas. Segundo, porque o tema escolhido neste biênio - a malária - é uma doença de populações anônimas, geralmente de classe baixa, em 99% dos casos provenientes da região amazônica.
Ribeiro cita diversas estatísticas, apontando para incoerências na distribuição de recursos para a pesquisa, no setor de saúde. Segundo ele, no mundo há de 300 a 500 milhões de casos de malária, com 2 a 3 milhões de mortos por ano, sendo 1 milhão só de crianças abaixo de 5 anos, sobretudo na áfrica. No Brasil, são cerca de 400 mil casos de malária reportados, com 5 a 10 mil mortos por ano. Apesar de tais números, os recursos disponíveis para a pesquisa sobre vacinas e tratamentos contra a malária são 100 vezes inferiores aos gastos com a aids. "E a aids atinge, no Brasil, cerca de 1.400 pessoas por ano, de 3 a 7 vezes menos do que o número de mortos pela malária", observa o pesquisador.
Mesmo com recursos limitados - aproximadamente 80 mil reais por ano - Cláudio Ribeiro vem obtendo resultados importantes na busca de imunização contra a malária. Ele trabalha em duas frentes, com outros dois pesquisadores, dois pós-graduandos e dois técnicos, "mais a colaboração inestimável dos centros de primatologia de Belém e da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro". A primeira frente é a busca da melhor combinação de antígeno com substâncias adjuvantes. A segunda é o estudo do sistema imunológico de duas espécies de macacos, mais resistentes à malária.
O que o pesquisador pretende é conseguir uma alternativa de vacina contra a malária. Como a doença é provocada por quatro espécies diferentes de parasitas unicelulares, do gênero Plasmodium, mais complexos do que muitos vírus, a fabricação de vacinas pelos métodos usuais ainda não deu certo. Agora, laboratórios de diversos países, sob coordenação da França e Dinamarca, trabalham com DNA recombinante, isto é, proteínas do parasita transferidas para bactérias. Estas bactérias modificadas fariam o papel do antígeno, ou seja, o corpo estranho que vai provocar uma reação imunizante do organismo. Tais proteínas, porém, são muito pequenas e, por isso, seu efeito precisa ser potencializado por substâncias a elas adicionadas, as substâncias adjuvantes.
A equipe do IOC trabalhou sobre algumas dessas combinações e já obteve bons resultados em modelos animais pequenos, como camundongos. Agora estão fazendo testes com duas espécies de primatas: macaco-de-cheiro e macaco-da-noite. As mesmas espécies de macacos da Amazônia estão sendo estudadas pela equipe de Cláudio Ribeiro, na segunda frente de trabalho. "Embora não tenham um sistema imunológico idêntico aos dos humanos, há muitas semelhanças e estes dois primatas, em especial, apresentam facilidade em se imunizar contra a malária: bastam 2 a 3 infeções e eles estão imunes", explica o pesquisador. A forma como adquirem tal imunidade, ele acredita, poderá fornecer pistas para tratamentos e vacinas contra a malária em humanos.
"A pesquisa com a malária e outros parasitas complexos também vem nos obrigando a questionar os fundamentos da imunologia", diz Cláudio Ribeiro. "Sempre consideramos o sistema imunológico como um sistema de defesa do organismo contra invasores externos, mas agora estamos começando a considerá-lo um sistema de auto-reconhecimento". Isso explicaria, segundo o pesquisador, a dificuldade em se conseguir vacinas contra parasitas complexos.
Estes seres têm partes de suas proteínas semelhantes ao organismo do hospedeiro. Ou seja, o sistema imunológico do hospedeiro reconhece as semelhanças e não sabe como combater o corpo estranho porque seria como atacar o próprio organismo. O dilema dos especialistas é encontrar uma maneira de o sistema imunológico atirar nos antígenos e só passar de raspão pelas proteínas do próprio organismo.
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