Pesquisa sobre Aids pode levar à vacina contra mal da vaca louca
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de abril de 2001
Napoleão Sabóia Agência Estado De Paris 
O co-descobridor do vírus da Aids, professor Luc Montagnier, está engajado num programa que pode beneficiar muitos países. Com pesquisadores e investidores brasileiros e americanos, participa do desenvolvimento de uma vacina contra o mal da vaca louca. As pesquisas que realizamos sobre a Aids se aplicam também à vaca louca, disse ele, em entrevista à Agencia Estado.
Montagnier elogiou o programa brasileiro de combate à Aids e penitenciou-se pelo fato de, em 1988, durante visita ao Brasil, haver anunciado para
breve a vacina contra a doença, ainda hoje em fase de pesquisa. Duas questões o preocupam: as condições propícias a uma explosão de doenças infecciosas no século 21 e a falta de um código de ética para o uso da genética. Os biólogos têm nas mãos uma nova bomba, que pode exterminar a humanidade de maneira mais simples do que o holocausto nuclear. Os principais trechos da entrevista:
Agência Estado - A ciência conseguirá neutralizar o mecanismo de metamorfose do vírus HIV?
Luc Montagnier- A fim de poder sobreviver e se multiplicar um parasita tem estratégias. O vírus da Aids tem as suas - e a primeira é precisamente variar ou se transformar, enganando o sistema imunológico. A segunda é encontrar diferentes vias de acesso às células. Até agora, a pesquisa detectou um certo número dessas entradas, mas muitas permanecem desconhecidas. Devemos continuar as pesquisas para identificá-las bem como as células que o vírus infecta.
AE- Em que pé está a vacina contra a Aids?
Luc Montagnier- Nunca mais repeti a afirmação infeliz que fiz no Brasil, em 1988, prevendo a vacina para dali a dez anos. Pequei por excesso de otimismo. Na verdade, para que se possa desenvolver a vacina, é preciso determinar primeiro todas as formas que toma o vírus. Se, para acelerar o processo, se fabricasse uma vacina contra o invólucro convencional do vírus, ninguém teria com isso a segurança de poder proteger totalmente o organismo da infecção.
Um dos problemas que dificultam a pesquisa é que são poucas as espécies animais de que dispomos para experiências. Trabalhamos com macacos, mas os resultados não são totalmente suscetíveis de ser transpostos ao homem. Agora, minha estratégia particular contra o vírus tem, de início, ambições limitadas. Em vez de uma vacina de caráter preventivo, penso em desenvolver primeiro uma vacina terapêutica, que seria dada às pessoas já infectadas para reforçar seus sistemas imunológicos debilitados.
AE- Como o senhor vê a posição dos laboratórios farmacêuticos contra a produção de genéricos antiaids?
Luc Montagnier - Não devemos apedrejar os laboratórios. Eles gastaram somas elevadas nas pesquisas de medicamentos. Milhares de composições foram testadas e poucas, afinal, se revelaram aptas a ser utilizadas. É evidente que não pode sair barato um medicamento que exige investimentos por 10 anos ou mais.
Por outro lado, dentro da lógica liberal, é normal que os laboratórios defendam suas patentes. A proteção de patentes é portanto legítima. Acho abusiva a assertiva de que as companhias farmacêuticas só pensam nos lucros. Não se fala com a mesma ênfase das companhias que baixaram 90% o preço de vários produtos nos países do Sul e de outras que não recebem royalties pelo uso de suas patentes na área.
AE- Qual é sua visão do problema?
Luc Montagnier- É preciso adaptar o tratamento a todos os pacientes, sobretudo nos países do Sul. Os laboratórios compreenderam a situação e propõem agora dois preços: um mais elevado para os países ricos e outro reduzido para os pobres. Não sou contra a utilização de genéricos, sei que o Brasil fabrica alguns com qualidade comprovada.
AE- O que o senhor acha do programa brasileiro de combate à Aids?
Luc Montagnier - Já apresentei minhas felicitações pelo sucesso do programa ao presidente Fernando Henrique Cardoso em outubro, em Madri. É admirável o esforço que faz o Brasil para assegurar o coquetel antiaids a seus doentes. Tudo o que espero é que seja aprofundada no Brasil a pesquisa visando a descoberta de novas formas de tratamento. Meus colegas brasileiros estão atentos à questão da vacina.
AE - Como estão suas pesquisas para a vacina contra o mal da vaca louca?
Luc Montagnier - O projeto interessa muito a especialistas e investidores brasileiros com os quais estou em contato. Por enquanto, não posso adiantar mais nada a respeito dos nossos acordos. Há também americanos nesse programa. As pesquisas que realizei sobre a Aids se aplicam à vaca louca, para a qual tentaremos desenvolver um teste quase idêntico ao que conseguimos para o HIV.
O agente da vaca louca não tem aparentemente as propriedades de um vírus comum. Trata-se de uma proteína. Mas esse agente, a exemplo de um vírus, se encaminha, se desenvolve a partir dos gânglios linfáticos até chegar ao cérebro num espaço de tempo relativamente longo. Nesse sentido, lembra, entre outros, o vírus da poliomiolite.
AE- Que gênero de reflexão lhe inspira o aparecimento da vaca louca?
Luc Montagnier - Temos de intensificar os cuidados e as pesquisas dessas novas doenças e das antigas que estão de volta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já criou um centro de vigilância da gripe. É preciso estender a iniciativa a outras doenças, sobretudo às que podem ser transmitidas pelo sangue.
No caso da vaca louca, temos de fazer o mais rápido possível o teste capaz de detectar a infecção antes da morte. Os Estados devem considerar seriamente o fato de que as condições estão reunidas para uma explosão de doenças infecciosas no século 21. Essas condições passam pelo crescimento demográfico, pelo fenômeno das concentrações urbanas.
As pessoas se amontoam em trens, metrôs, aviões, em espaços cada vez menores, assim como os animais que entram nesse caldo de cultura das novas epidemias. Nesse contexto, interferem ainda de modo substancial a poluição industrial, o aquecimento da Terra provocado em parte por esta última e que poderá propiciar a irrupção, nos países temperados, dos insetos vetores das doenças tropicais.


