Pesquisa revela que ''jeitinho'' é aceito
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de março de 2004
Agência Estado 
Rio- O engenheiro Sílvio Chaves, de 53 anos, voltava de uma festa com um amigo quando o trânsito engarrafou. Ao perguntar aos outros motoristas, soube que havia uma blitz com bafômetro alguns metros à frente. Ele e o amigo não pensaram duas vezes. Desceram do carro e empurraram o veículo até os policiais. Os PMs chegaram a perguntar se o carro estava quebrado, ao que Chaves repondeu a verdade. ''Disse que havíamos bebido um pouco e não era prudente dirigir'', contou, ainda divertindo-se com a aventura de três anos atrás. O engenheiro escapou da multa.
A brincadeira é exemplo de uma prática que há muito faz parte do cotidiano brasileiro - a de dar um ''jeitinho''. Uma pesquisa da DataUFF, instituto de pesquisa da Universidade Federal Fluminense, patrocinada pela Fundação Ford, mostra que dois terços da população já se utilizou desse expediente.
Mais: os brasileiros estão divididos. Metade dos 2.364 entrevistados acredita que ''dar um jeitinho'' é sempre certo (9%) ou certo na maioria das vezes (41%). A outra metade acredita que é sempre errado (18%) ou errado na maioria das vezes (32%). ''Vivemos num país moralmente dividido e ambíguo'', diz o professor Alberto Carlos Almeida, coordenador da Pesquisa Social Brasileira (Pesb). Ele também é coordenador do FGV Opinião, insituto da Fundação Getúlio Vargas.
Almeida alerta para o risco de o ''jeitinho brasileiro'' ser ''a ante-sala da corrupção''. ''Na medida em que você amplia a tolerância para a quebra de regras, perde a autorida para cobrar quem rompe essas regras e dissemina a aceitação da corrupção'', diz Almeida.
A pesquisa apresentou situações e pedia para os entrevistados responderem se acreditavam que aquele episódio era exemplo de um favor, jeitinho ou corrupção. Para 50% dos ouvidos na pesquisa, uma pessoa que conhece um médico e passa à frente na fila do posto está dando um ''jeitinho'', 40% acreditam tratar-se de corrupção e os 10% restantes acham que é um favor.
Situação semelhante levou o diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea do Instituto do Câncer, Daniel Tabak, a pedir demissão. Ele alegou que recebeu pressões políticas do gabinete do vice-presidente José Alencar para passar uma paciente à frente na fila de transplantes.
A mesma situação - furar a fila com ajuda de um funcionário conhecido - num banco teve avaliação bem diverente. A maioria dos entrevistados acha que se trata de jeitinho (56%), ou de favor (28%). Apenas 17% acreditam ser corrupção. De acordo com o trabalho, situações próximas do cotidiano da população (furar fila no supermercado) são vistas como jeitinho ou favor. Já as mais distantes do dia-a-dia ou que envolvam dinheiro são classificadas como corrupção.


