Pesquisa revela que escola carioca não prepara para exercício da cidadania
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segunda-feira, 24 de maio de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 25 (AE) - A escola carioca não prepara seus alunos para o exercício da cidadania nem para o mercado de trabalho. A conclusão é da pesquisa "Fala Galera - Juventude, Violência e Cidadania na Cidade do Rio de Janeiro", realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), no ano passado, com 1.686 pessoas, entre os quais, 1.220 jovens e 443 educadores. Segundo o trabalho, a educação atual não reflete as necessidades dos alunos.
"Enquanto há nos educadores uma idéia vaga, abstrata, de que a escola deve formar cidadãos - mesmo que na prática eles não tratem desse assunto claramente em sala de aula -, os alunos estão mais preocupados com o seu futuro, com um lugar no mercado de trabalho", afirma Maria Cecília Minayo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, uma das parceiras da Unesco no projeto.
A distância entre o discurso do professor e a prática em sala pode ser exemplificada na tabela que trata dos temas que os educadores conversam com seus alunos. A maioria dos professsores (67%) acha que educação deve formar cidadãos, mas, parodoxalmente, a discussão sobre a política (fator importante na formação desse cidadão) aparece como o segundo assunto menos discutido entre eles e seus alunos - à frente apenas do esporte.
O mesmo se reflete na opinião dos jovens. Em tabela similar, a política é o último assunto que estudantes, de todas as classes sociais, discutem com seus mestres. "Não é de se esperar, portanto, que tenhamos um grande índice de alunos que acreditem que a ditadura seja a melhor forma de governo", afirma Maria Cecília. Como foi divulgado hoje pelo Estado, 64,5% dos alunos mais pobres e 47% dos mais ricos são favoráveis ao regime de exceção, se mostram indiferentes ou não sabem responder. Pela democracia, afirmaram, com convicção, 35,5% dos alunos mais pobres e 53%, dos mais ricos.
Pela pesquisa, quase 90% dos estudantes de todas as camadas sociais da população gostam de ir à escola, mas a maioria deles está insatisfeita com o que lhes é oferecido - em especial, os das classes populares (C, D e E). Cerca de 55% dos estudantes mais pobres avaliam o ensino que recebem como regular ou ruim contra 44,5% que disseram ser "bom". Entre os alunos das classes média e alta, a aprovação é maior (52,4%), mas a avaliação negativa assusta: 47,2% acham que o que aprendem em sala de aula é regular ou ruim.
"Há uma grande insatisfação, principalmente, entre os alunos de escolas públicas, quanto ao conteúdo", afirma Maria Cecília. "A escola hoje exerce um papel mais informativo do que de formação." Enquanto os alunos pobres buscam no ensino uma ponte para o mercado de trabalho, os mais ricos querem que a escola discuta assuntos de formação geral e extracurriculares.


