Pesquisa revela que comércio é serviço mais rejeitado da Internet
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domingo, 20 de fevereiro de 2000
Por Gustavo Alves 
Rio, 21 (AE) - Pesquisa realizada pelo Ibope para o site Cadê? mostrou que o serviço da Internet mais rejeitado pelos usuários da rede é a compra de produtos. Dos 25 mil internautas que responderam à pesquisa, feita entre novembro e dezembro do ano passado, 27% afirmaram que nunca comprariam algum produto pela rede.
De acordo com o comunicado do site e do instituto de pesquisas mandado aos seus entrevistados, o receio sobre a privacidade de seus dados ou fraude pode ser uma razão para a desconfiança. Mas outra razão pode ameaçar o desenvolvimento do hábito: já começam a ser registrados casos de consumidores que tiveram dificuldades em receber os artigos encomendados.
"Vou pensar muito antes de comprar alguma coisa na Internet de novo", afirmou o técnico da Telemar Roberto Ramos da Silva, de 21 anos. O motivo da desconfiança foi a burocracia enfrentada para conseguir um CD escolhido no site Submarino. A encomenda foi feita no dia 8 de janeiro, com sete dias úteis de prazo para a entrega.
Somente 16 dias depois de Silva ter feito o pedido e pago por depósito bancário R$ 20,50, o site comunicou ao técnico que o artigo não estava em seu estoque. O técnico da Telemar denunciou o caso em uma carta para um jornal carioca e no site "Reclamar Adianta", de defesa do consumidor (www.reclamaradianta.com.br) - e finalmente recebeu a encomenda, em três dias, sem explicação para a súbita eficiência. A Submarino foi procurada hoje para explicar a confusão - mas até o fim da tarde, não havia se pronunciado.
Desconfiança geral - "Se continuar neste nível, por enquanto, não vou comprar pela Internet", avisou o técnico. A reação dele é comum entre clientes insatisfeitos com a rede, avisou o coordenador do Procon no Rio de Janeiro, átila Nunes. "Quando o serviço não corresponde ao prometido, muitas vezes, a insatisfação chega ao ponto de o usuário não querer mais saber nem daquele site e nem de todos os outros", conta.
Do ano passado, quando as compras pela rede ficaram mais populares, até agora, o Procon do Rio recebeu apenas 39 queixas sobre vendas pela Internet. Mas este número não significa que os insatisfeitos sejam poucos, lembra Nunes. "O consumidor da Internet geralmente prefere resolver o caso sozinho", explicou. "Para registrar a queixa no Procon, ele teria de vir até o órgão, e ele compra pela rede justamente porque não gosta de se locomover."
O coordenador do Procon lembra que pelo Código de Defesa de Consumidor qualquer aquisição feita fora da loja pode ser cancelada em até sete dias, sem nenhum prejuízo para o cliente. Os sites não podem ser considerados lojas, afirmou. "O princípio desta norma é justamente para proteger aquele que compra sem tocar, sem experimentar o produto", esclareceu.
Cartão - Nunes orienta os consumidores a preferirem pagar suas compras pela Internet com cartão de crédito justamente para ter facilidade em cancelar a encomenda. Mas a opção levanta outro grande medo dos usuários: a quebra de sigilo dos dados do cartão. "Por enquanto, existe uma desconfiança", reconhece o presidente da Associação Brasileira dos Provedores de Acesso, Serviços e Informações da Rede Internet no Rio de Janeiro (Abranet-RJ), Murillo Marques Júnior.
Para ter alguma segurança, Marques recomenda aos consumidores que escolham sites que confirmem os dados do cartão pedidos para realizar a compra, por meio de consultas feitas por e-mail após o fornecimento dos dados. "Existem sites que simplesmente pedem a você o número do cartão de crédito, e outras fazem checagem para depois liberar."
Corrida - O diretor de pesquisas do banco Warburg Dillon Read no Brasil, Marcelo Mesquita, lembra que a pressa dos sites em conquistar mercado, enquanto a Internet está em fase de estruturação no Brasil, pode prejudicar os serviços de venda. "Estamos em uma fase em que todo mundo está querendo uma cara para seu negócio, mas não tem o negócio por trás da cara", criticou.
"Você vê empresas gastando fortunas em jornal mas ela ainda não tem o produto para oferecer", lembrou Mesquita, apontando a necessidade de os sites terem de formar sua estrutura para cumprir o que promete aos usuários. "O perigo deste início é que, como as empresas da Internet estão valendo muito, dá esta corrida para colocar a página no ar." "Muita gente está achando que, só porque colocou a página, já tem milhões na mão, e não é bem assim", avisou o pesquisador do mercado.
Ele acredita que a própria concorrência na rede, com o tempo, vai melhorar os serviços. Mas aponta também outra razão, que não a pressa, para investimentos maiores em marketing do que no funcionamento efetivo da home page. "Há um pessoal que quer ver se o seu site valoriza para vender para algum trouxa e sair com o dinheiro", denunciou.


