Pesquisa revela mudança no perfil do morador de rua do Rio
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terça-feira, 08 de junho de 1999
Por Eliane Azevedo 
Rio, 09 (AE) - Uma pesquisa encomendada pelo governo do Estado do Rio mostra que o perfil da população de rua da região metropolitana do Rio está cada vez mais distante do estereótipo do mendigo alcoólatra ou do desocupado circunstancial. O estudo, realizado pelo Quantidados, o núcleo de pesquisa do Departamento de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), concluiu, em sua primeira etapa, que a rua é, hoje, predominantemente, o lar do trabalhador pobre do setor informal - para quem até a favela ficou fora do alcance do bolso.
"O mendigo é uma figura do passado", aponta o coordenador da pesquisa, José Augusto Rodrigues. "O personagem central da rua hoje é o trabalhador, na maioria dos casos informal, embora tenhamos encontrado pessoas com carteira assinada, além de famílias inteiras e bem-estruturadas". O relatório dessa fase inicial do trabalho será apresentando amanhã à vice-governadora Benedita da Silva, que contratou o estudo para mapear quem são e onde estão os moradores da rua.
Segundo Rodrigues, a rua exerce atualmente o papel que a favela já teve, a de abrigar pessoas sem condições de pagar pela moradia. "Hoje quem mora na favela é a elite da pobreza", define ele. Os números ainda não estão fechados, mas os pesquisadores encontraram um percentual significativo de catadores de latas de alumínio entre a população de rua, além de camelôs e operários da construção civil - que até podem ter casa na periferia, mas moram na rua durante a semana para garantir o ponto ou economizar o dinheiro da condução.
Entrevistas - Nessa primeira etapa, 30 pesquisadores, divididos em equipes que percorreram 15 áreas da região metropolitana do Rio, fizeram o perfil de pessoas que não quiseram responder à entrevista de 43 perguntas elaborada para a pesquisa, mas tiveram seus dados básicos anotados e conversaram com os entrevistadores - um time formado por educadores e psicólogos com experiência com população de rua. No próximo sábado, as equipes vão terminar a coleta de cerca de mil entrevistas, que, até o final do mês, serão analisadas e vão compor o relatório final.
O Quantidados trabalha com uma estimativa de que, na cidade do Rio, existam 2,5 mil pessoas que vivem nas ruas. O estudo demonstra que outro mito está derrubado: praticamente não há migrantes entre essa população. Alcóolatras, drogados e doentes mentais também compõem o perfil, mas não de forma dominante. Entre esses casos, os pesquisadores encontraram até pessoas com formação superior, como um pediatra, alcóolatra, que há dois anos mora na rua, desde que foi expulso de casa pela mulher.
"A exclusão e a marginalidade se caracterizam quando a pessoa pára de tomar banho", aponta Rodrigues. "Ela não pode mais interagir em ambientes sociais, ao contrário de pobres com roupas remendadas, mas de banho tomado". É aí que a degradação e o processo de perda de identidade se instalam - e o caminho de volta à vida normal fica mais longe. "A composição demográfica da rua mudou, mas a dissolução da identidade, a perda da capacidade de apresentação social, acontece com todos e o retorno é muito difícil", diz ele.


