Pesquisa revela desejo precoce da maternidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de março de 2001
Fabiane Bernardi Agência EstadoDe São Paulo 
O que leva jovens com idades entre 11 a 19 anos a ficarem grávidas mesmo conhecendo métodos anticoncepcionais como a pílula e a camisinha? A resposta é obtida em uma pesquisa foi: o desejo de ser mãe e ter um filho, mesmo que precocemente. Essa revelação é apenas parte de um estudo que está sendo desenvolvido no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism), da Unicamp, como parte da tese de mestrado do ginecologista e obstetra Márcio Belo, sob orientação do diretor do Departamento de Tocoginecologia do Caism, João Luiz Pinto e Silva.
A pesquisa, realizada com meninas que procuraram o Caism depois de descobrirem que estavam grávidas, revelou dados importantes, colocando por terra a idéia de que a falta de informação seria o principal motivo da gravidez na adolescência. Segundo dados, 99,4 % das garotas entrevistadas afirmaram conhecer a camisinha, e 98% sabiam das pílulas anticoncepcionais. Porém, 52,5 % manifestaram o desejo de ser mãe.
No começo dos anos 80 essa mesma investigação foi realizada, apontando as mesmas características. Há 20 anos, cerca de 90% afirmaram conhecer pelo menos um método anticoncepcional. Porém notamos que, com o passar dos anos, com a divulgação do sexo e anticoncepcionais pela mídia, seja devido à Aids ou outras doenças sexualmente transmissíveis, aumentou o nível de informação entre as jovens, observa João Luiz.
Apesar do avanço no que diz respeito à informação, a gravidez na adolescência continua acontecendo e na maioria das vezes prejudicando a vida futura dessas jovens mães. Aumentou o grau de conhecimento, mas não aumentou o grau de prevenção. É necessário lembrar que essa pesquisa foi feita com meninas que já estavam grávidas. Elas afirmaram conhecer anticoncepcionais, falaram de camisinha, pílula, DIU e outras alternativas. Diante desses dados podemos notar que o conhecimento não tem gerado uma prática consciente. Uma coisa é saber que existe, outra é saber que precisa usar um anticoncepcional, afirma o médico.
A pesquisa apontou que, enquanto 17,9% acham muito inconveniente usar um anticoncepcional, 24,5% das meninas entrevistadas queriam ser mães, apesar da pouca idade. E um de grupo de 2,8% respondeu que não se importava caso viessem a ficar grávidas.
Das meninas entrevistadas, 51,9% não estudam. Os pais de 5,1% são analfabetos e 57% têm apenas o ensino fundamental. Entre as mães das adolescentes esse número é ainda maior: 10,3% não sabem ler e escrever, e 71% frequentaram até a 4ª série.
Ao observar adolescentes com maior escolaridade, melhores recursos econômicos, ou com uma prática religiosa, notou-se algumas diferenças. Percebemos que essas situações são protetoras. Se você investigar o início da vida sexual dessas jovens verá que se deu mais tarde, de forma mais consciente.
Para João Luiz, que prevê a conclusão da pesquisa até julho deste ano, é importante que aja uma política de atenção a esse segmento da população. É necessário que se tenha uma educação que utilize as ferramentas da prevenção para evitar maiores consequências na vida dessas jovens, como uma gravidez precoce ou uma doença sexual que poderia ter sido evitada com o uso de um preservativo.


