Pesquisa revela cultura política feminina
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domingo, 03 de fevereiro de 2002
Mariana Caetano Agência Estado 
Um terço das brasileiras acredita que as mulheres não estão preparadas para governar o País. A informação é parte do mais recente levantamento sobre a cultura política feminina, concluído em outubro e divulgado esta semana pela Fundação Perseu Abramo, durante o Fórum Social Mundial.
Num universo de 2.502 entrevistadas em 187 municípios de 24 Estados, 36% indicaram alguma restrição para a capacidade de comando da mulher nas três esferas de governo. A maioria das entrevistadas (59%), ao contrário, sustenta que as mulheres estão em condições de governar a cidade, o Estado e o Brasil.
Se nada impede a natureza feminina de governar, muito pelo contrário, chama a atenção o dado de que ainda exista um terço das mulheres que resista ao exercício político da mulher, avalia o sociólogo Gustavo Venturi, um dos coordenadores da pesquisa. Isso mostra onde está um dos problemas (para a consolidação da participação feminina na política). E, certamente, esse dado entre os homens é maior.
Para 17%, as mulheres não estão preparadas para governar. Outras 11% afirmaram que prefeitas e governadoras estariam aptas a exercer suas funções apenas nos Estados e municípios e 8% acreditam que elas podem comandar só cidades. O maior descrédito se concentra nas faixas de menor escolaridade. Por aí, é possível ver como se dá a introjeção da submissão. As entrevistadas não conseguem se imaginar no papel de comando, diz Venturi.
No segmento pesquisado que não tem nenhuma formação, 34% acreditam que as mulheres não estão preparadas para governar. O mesmo porcentual indica exatamente o contrário. Entre as entrevistadas com curso superior, 87% não fazem nenhuma restrição à atividade política feminina.
De acordo com Venturi, esses números demonstram que apesar do surgimento da primeira candidatura feminina à Presidência com chances de vitória, a da governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL) o fator mulher não será determinante na eleição. Como única candidata, ela vai ganhar votos apenas por ser mulher, mas também vai perder eleitores por isso, prevê. De qualquer forma, todos os concorrentes serão obrigados a trabalhar também com a agenda voltada para a mulher. E isso é saudável. Tende a levar a um avanço contra a discriminação.
A pesquisa ouviu mulheres com mais de 15 anos sobre sua própria participação em movimentos organizados e na política, a influência desta em suas vidas e vice-versa, a preferência partidária, a tolerância com pessoas que defendem idéias diferentes da maioria e sobre o regime de governo.
Gustavo Venturi destaca os dois últimos itens. A partir da comparação com levantamentos de 1989 e 1997, ele constatou, na melhor das hipóteses, a estagnação dos indicadores de adesão à democracia e o recuo na participação política. Esses elementos constituem uma base social importante de sustentação do regime democrático.
Apenas 47% das entrevistadas acredita que a democracia é sempre a melhor forma de governo. Em 97, 51% tinham essa opinião. A pesquisa tem margem de erro de 2 pontos porcentuais. Para um quarto das mulheres entrevistadas em outubro do ano passado, tanto faz se o regime é ditatorial ou democrático. Há cinco anos, esse total equivalia a 19%.
Em 1989, numa democracia incipiente após o regime militar, 26% se mostravam indiferentes aos regimes. Provavelmente a democracia não tem mostrado a que veio, no sentido de atender aos anseios da população. E esses números podem ser estendidos a homens, avalia Venturi.
Os resultados indicam ainda pouco engajamento das mulheres: 56% acreditam que não influem na política. A tolerância a temas polêmicos e a quem os defende é pequena. No que diz respeito à idéia de que os homens no geral são superiores às mulheres, por exemplo, 54% das entrevistadas dizem discordar da questão, mas acreditam que quem a apoia não deve tentar convencer os outros. O direito de defender a diferença é indicativo importante para a democracia, conclui Venturi.


