Brasília, 29 (AE) - O Ministério da Saúde vai vacinar toda população do Norte do País contra a hepatite B. O trabalho tem início em agosto pelo Acre. No ano passado, já prevendo a vacinação em massa, o governo adquiriu 24 milhões de doses da vacina. Os números da contaminação pela doença na região são preocupantes, segundo a virologista Gilberta Bensabath, do Instituto Evandro Chagas, de Belém (PA). De acordo com ela, a contaminação por hepatite B atinge entre 5% e 15% das populações residentes às margens dos rios Juruá, Purus e Madeira, na Amazônia. No Pará e Amapá, o índice de contaminação é altíssimo entre os índios e garimpeiros. Só na tribo Parakanã, afirma, a doença já atinge 14,4% das pessoas da aldeia Paranatinga, do Pará.
Há mais de duas décadas a virologista pesquisa a doença na área. Gilberta Bensabath começou seus estudos na década de 70 na região do rio Purus, que abrange os Estados do Amazonas e Acre. "Na Amazônia, a endemicidade de hepatite B e Delta (essa fulminante) é elevada e a prevalência de portadores crônicos da doença é altíssima em diversas áreas", afirma. A pesquisadora defende a vacinação, sem interrupção, em toda a região Norte, como a medida de melhor custo-benefício a se implantar. A vacinação em massa na região só começou a ser realizada em 1989 no baixo Amazonas, mas os índices de contaminação ainda continuam elevados.
Segundo a virologista, os números da incidência da doença na Amazônia por ela apresentados resultam de inquéritos soroepidemiológicos, triagem em doadores de sangue, vigilância epidemiológica e mortalidade específica. De acordo com o Centro Nacional de Epidemiologia (Cenepi), a região Sul é a que apresenta a menor endemicidade. Além da Amazônia (a média de prevalência é de 8%), o Espírito Santo e a região oeste de Santa Catarina são áreas consideradas de alta endemicidade. De acordo com o Cenepi, a taxa de letalidade dos pacientes hospitalizados varia de 0,8% a 2% do total. Mas esse índice pode aumentar entre os pacientes com mais de 40 anos e ser maior ainda nos casos associados ao vírus Delta. A taxa de mortalidade é de 0,6 para cada 100 mil habitantes. Delta - Em Boca do Acre, no Amazonas, a virologista do Evandro Chagas constatou que o vírus da hepatite B atingia mais de 60% dos jovens com até 14 anos de idade. Já na zona rural a contaminação foi confirmada em 80% das amostras coletadas. Também foi nesse município que detectou-se pela primeira vez a presença do vírus Delta no País. Em Sena Madureira, no Acre, a pesquisa revelou a prevalência do vírus em 10% das crianças com idades entre cinco e nove anos. Já em Rio Branco, a capital do Estado, um estudo feito ano passado mostra que 11.676 pessoas são portadores da hepatite B. Segundo o levantamento, cerca de 10% desse total evoluirão para a doença crônica. Gilberta admite o perigo de disseminação da doença. Opas - O chefe do Programa de Imunização da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), Bernardus Ganter, afirma que entre 6% a 8% da população da Amazônia são portadores de hepatite B, doença que atinge no mundo 2 bilhões de pessoas. Pelos seus cálculos, cerca de 900 mil pessoas dos 11 milhões que habitam a Amazônia seriam portadores da doença. Segundo Ganter, um total de 350 milhões de pessoas são portadores crônicos e 1,5 milhão morrem todos os anos por causa da doença. As relações sexuais, as transfusões, uso de drogas endovenosas e a perinatal (filho de mãe portadora) são algumas formas de transmissões.

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