São Paulo, 15 (AE) - De cada dez pacientes que usam remédios anti-retrovirais para tratar infecções pelo HIV no Estado de São Paulo, sete aderem ao tratamento de forma adequada
segundo pesquisa divulgada hoje pelo Departamento de Saúde Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O coordenador do Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids (DST/Aids), Pedro Chequer, considerou bom esse índice, que se equipara às taxas apontadas em estudos semelhantes nos Estados Unidos.
Ele informou que a pesquisa poderá ser usada como argumento para reforçar a política de distribuição universal do coquetel antiaids. "Tudo indica que não estamos desperdiçando o investimento nesse projeto", disse. Entre outros especialistas, porém, o índice apontado pela pesquisa foi visto com cautela. Adauto Castelo Filho, professor de Doenças Infecciosas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), disse que o número de pacientes que não tomam os remédios de forma adequada pode ser bem maior. As pessoas enfrentam muitas dificuldades para tomar até 10 pílulas por dia durante toda a vida, explicou.
O infectologista Caio Rosenthal, do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, também apresentou dúvidas. De acordo com suas observações, entre os soropositivos que são usuários de drogas, a taxa de adesão é muito menor do que a apontada na pesquisa. "Não sabemos quantos pacientes usuários de drogas estavam na população avaliada pelo estudo". Pesquisa - Na opinião de Chequer, os resultados da pesquisa, que abrangeu um universo de mais de 1.250 pessoas, são confiáveis e devem servir para orientar a política do governo. Em 1998, o Ministério da Saúde gastou R$ 352 milhões em medicamentos para o coquetel. "Economizamos cerca de R$ 200 milhões em dois anos só em internações provocadas por doenças oportunistas". Chequer também disse hoje em São Paulo que está trabalhando com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da USP para obter dados ainda mais específicos sobre a economia que a atual política de atendimento oferece ao País.
A pesquisa, coordenada por Maria Inês Baptistella Nemes, avaliou também as causas da falta de adesão. Ela indicou que o problema aumenta entre pacientes de baixa renda e pouca escolaridade. Isso explica em parte por que a maior taxa de não-adesão foi encontrada entre pessoas que moram na rua. Os funcionários dos centros e postos de saúde também tiveram seu desempenho avaliado. Segundo Maria Inês, o maior problema verificado foi a falta de uma aproximação adequada com o paciente. "É preciso ter um diálogo aberto, para discutir todo o tratamento e evitar que o paciente desista", disse. Campanha - Para aumentar a adesão, Chequer lançou uma campanha em parceria com os Laboratórios Merck Sharp & Dohme e Abbott. Profissionais de centros de saúde e de organizações não-governamentais de todo o País serão treinados para montar grupos de auto-ajuda. Três centros, dois no Rio e um em São Paulo, já estão participando da campanha. Outras unidades do Norte do País começarão a treinar seus funcionários na próxima semana.
A Coordenação Nacional de DST/Aids está lançando também o Sistema Nacional de Vigilância de Resistência. Estágio incial, esse projeto visa a identificar as cepas resistentes do HIV no País. "É uma forma de economizar", explicou Chequer. "Se soubermos a quais remédios as cepas brasileiras são resistentes, podemos evitar o uso de produto que não funciona". Rosenthal afirmou que a falta de adesão é o principal fator que leva o HIV a criar uma resistência aos remédios. "Somente uma campanha bem-feita, que tenha um forte impacto principalmente em moradores de rua e usuários de droga, funcionará de forma adequada".

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