Rio, 12 (AE) - Nordestinos, com primeiro grau incompleto
donos de lojas não-legalizadas, que não empregam. Esse é o perfil dos empreendedores da Rocinha, no Rio, tida como a maior favela da América Latina, resultado de uma pesquisa concluída em julho pela Secretaria Municipal do Trabalho (SMTb), Associação Comercial e Industrial da Rocinha (Acibro) e organização não-governamental (ONG) Serviços e Estudos de Realização Empresarial e Social (Sere). "O censo derruba o mito de que a Rocinha é um oásis econômico", afirma a agente da SMTb/Sere Thelma Santos, referindo-se ao pequeno comércio da favela.
A Rocinha tem 1.215 empresas, das quais 853 responderam ao questionário da pesquisa. São biroscas, confecções, videolocadoras, mercados, armarinhos e lojas de móveis, entre outras. Do total, 94,8% iniciaram as atividades na própria favela.
Algumas grandes empresas também estão se estabelecendo na Rocinha, atraídas pelo mercado potencial representado pelos 150 mil moradores. São franquias de loja de material fotográfico
como a Fuji, e empresas de telefonia celular. A rede de lanchonetes McDonalds está em negociação para instalar um quiosque na favela.
Mas os negócios prósperos representam uma pequena fração do comércio na favela. De acordo com a pesquisa, 59,3% dos estabelecimentos estão instalados em imóveis alugados e 79,4% não têm alvará. A grande maioria funciona há menos de três anos e não emprega. As 853 empresas incluídas na pesquisa têm juntas 604 funcionários - 0,7 por loja. "Os empresários promovem o auto-emprego, mal conseguem se sustentar", explicou Thelma.
O paraibano José Roberto Pires, de 39 anos, é o típico comerciante da Rocinha. Chegou ao morro com 15 anos e teve vários empregos. Montou um armarinho com o dinheiro do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), cinco anos atrás. O negócio cresceu e hoje Pires vende desde artigos de papelaria a material de construção. "Tiro uns R$ 1.500,00 por mês e, antes, não ganhava mais de 300 reais", compara Pires, que trabalha cerca de 12 horas por dia ao lado da mulher. "Ainda não dá para ter um empregado."
Já o presidente da Acibro, Jorge Collaro, de 52 anos, é o exemplo oposto. Carioca, formado em Educação Física, ele é dono de uma academia de ginástica e de uma distribuidora de bebidas. Emprega 26 funcionários.
Apesar do perfil levantado pela pesquisa, nos últimos tempos, a Rocinha tem assistido à chegada de um novo tipo de empreendedor, que está assustando os comerciantes tradicionais. Com capital, ele investe em equipamento e pessoal. Há cerca de dois meses, um grupo de chineses abriu uma pastelaria. Já tem cinco lojas.
"Para o consumidor, é bom por causa da concorrência, mas a competição é desigual para o comerciante local", afirma Thelma. "É preciso abrir linhas de crédito."
Os comerciantes da Rocinha têm um programa de microcrédito, que os atende sem que o estabelecimento precise estar legalizado. Mas a prefeitura está oferecendo o abono das taxas municipais para quem regularizar a situação. "Vamos oferecer cursos de alfabetização e de capacitação profissional para melhorar a escolaridade dos empresários", diz o secretário de Trabalho, André Urani.
Outra iniciativa da prefeitura foi o cadastramento de profissionais autônomos para a formação de um banco de dados. "São funcionários com bom antecedentes, que já fizeram 2 mil atendimentos e sobre os quais recebemos apenas uma reclamação", afirma o secretário.

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