Pesquisa mostra que doentes mentais buscam rede pública
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de outubro de 2006
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Aproximadamente 17 milhões de brasileiros, o correspondente a 9% da população, sofrem ou sofreram nos últimos tempos de algum tipo de distúrbio mental grave. Desse total, 72% recorreram a atendimento pelo sistema público de saúde, 8% não conseguiram ser atendidos e 47% consideraram difícil obter assistência adequada. Os dados são da pesquisa divulgada ontem pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) durante o XXIV Congresso Brasileiro de Psiquiatria, realizado em Curitiba.
O objetivo da pesquisa, segundo o presidente da ABP, Josimar França, era avaliar a percepção de psiquiatras e da população em relação ao atendimento prestado pelo sistema público de saúde aos portadores de transtorno mental e contribuir para a formulação de políticas públicas para o setor.
Realizado pelo Datafolha em todo País, o estudo traz informações até então desconhecidas sobre o acesso ao atendimento em saúde mental no Brasil. A pesquisa, feita em outubro, ouviu 207 médicos psiquiatras e 2.267 pessoas da população, de todas as classes sociais. A maior fatia coube à classe C, com 41% das entrevistas.
''Os números indicam que pode haver uma tendência à privatização da saúde mental'', avalia o médico psiquiatra Sérgio Andreoli, coordenador do Centro de Epidemiologia Psiquiátrica da AMB. A afirmação do médico se baseia na confrontação dos resultados sobre o acesso aos serviços público e privado.
A pesquisa revela que, enquanto 47% achou difícil obter assistência pelo serviço público e 8% sequer conseguiram ser atendidos, entre os usuários da rede privada ou associados de planos de saúde, 100% foram atendidos e quase a totalidade (85%) achou fácil obter assistência médica.
Os médicos psiquiatras ouvidos também apontaram a deficiência da rede pública. Oitenta e quatro por cento afirmaram que a quantidade de serviços ofertada é limitada em sua região e não atende às necessidades da população. Sobre a facilidade de acesso a tratamento para portadores de transtornos mentais graves, 62% consideraram o acesso fácil na rede particular, 44% por meio de convênios e apenas 29% no serviço público.
O resultado da pesquisa junto à classe médica mostrou que está ocorrendo uma migração do atendimento em hospitais para os serviços comunitários de saúde. Esse resultado, segundo Andreoli, já era esperado, uma vez que segue a atual política de tratamento a portadores de transtornos mentais que estimula tratamentos extra-hospitalares. O assunto, no entanto, gera polêmica.


