Pesquisa 'joga pá de cal' relação entre vacina tríplice e autismo
Estudo com mais de 657 mil crianças na Dinamarca não mostrou qualquer relação entre a vacinação e o transtorno
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de abril de 2019
Estudo com mais de 657 mil crianças na Dinamarca não mostrou qualquer relação entre a vacinação e o transtorno
Rafael Costa - Grupo Folha 
Um estudo divulgado no início de março pela revista médica “Annals of Internal Medicine” afastou mais uma vez qualquer ligação entre a vacina tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) e a ocorrência de autismo em crianças. A pesquisa foi feita na Dinamarca e envolveu mais de 657 mil crianças nascidas entre 1999 e 2010. O Dia Mundial de Conscientização do Autismo é celebrado nesta terça-feira (2).

A hipótese foi levantada em 1998 em um controverso artigo publicado na revista “Lancet” que ainda tem efeitos negativos sobre a cobertura vacinal. O impacto ocorreu principalmente na Europa e nos Estados Unidos — onde, segundo o “Guardian”, a tendência é que 2019 seja o pior ano para o sarampo desde 1992. Efeito do que a OMS (Organização Mundial da Saúde) chama de “hesitação em vacinar” e avalia como uma das ameaças mundiais à saúde em 2019.
Na avaliação de Eleusis Ronconi de Nazareno, professora de Epidemiologia da UFPR (Universidade Federal do Paraná), a pesquisa divulgada neste mês reforça estudos anteriores e “joga uma pá de cal” sobre a hipótese que relacionou as vacinas com o autismo em 1998. “É um estudo que podemos chamar de ‘definitivo’, porque abrangeu um número grande de crianças num período longo, e não houve relação. Pode-se dizer até que a incidência em vacinados foi menor”, explica.
Apesar da fragilidade da pesquisa que relacionou a vacina e o transtorno e da publicação de diferentes estudos posteriores que não mostraram qualquer ligação, o temor de efeitos negativos da vacinação ainda existe. “Quando se publica uma informação e ela não é bem divulgada cientificamente, como ocorreu com o estudo de Andrew Wakefield em 1998, o estrago que se gera é tão grande que ainda não se conseguiu consertá-lo mais de 20 anos depois”, diz Nazareno.
A especialista argumenta que a atual propagação do sarampo na Europa é uma amostra das consequências que a lógica das fake news de hoje podem gerar para a saúde no futuro. “É preciso que as pessoas vejam o que aconteceu lá, onde há um surto há muitos anos”, diz. Segundo a OMS, os casos de sarampo na Europa triplicaram entre 2017 e 2018. Foram mais de 82 mil casos e 72 mortes de crianças e adultos. A doença é altamente contagiosa. “Veja o que fazem a mentira, o boato, os rumores. São ideias que criam malefícios”, critica.
BRASIL
Na avaliação da professora, não houve no Brasil um impacto similar do estudo de 1998 ao que ocorreu na Europa e nos Estados Unidos. A cobertura vacinal para o sarampo se manteve acima de 95% em 2015 e 2016, quando o Brasil recebeu da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) o certificado de eliminação da circulação do vírus. Em 2017, contudo, a cobertura já caiu para 85%.
“É uma situação bastante preocupante”, diz Nazareno, que atribui parte da tendência à influência de movimentos antivacina no Brasil e à disseminação de fake news. Ela pondera, contudo, que também há influência do que avalia como “certa desestruturação da assistência básica”, que também se reflete em piora na situação epidemiológica de doenças como a malária. A redução de agentes comunitários de saúde por subfinanciamento, por exemplo, seria uma das causas. “É mais fácil botar a responsabilidade nos movimentos antivacina, mas tudo isso tem muito a ver com a necessidade de os sistemas estarem funcionando bem para atingir as coberturas adequadas”, diz.
Segundo Vera Rita da Maia, enfermeira responsável pela divisão de Vigilância do Programa Estadual de Imunização do Paraná, os motivos para as quedas nas coberturas vacinais são, de fato, “multifatoriais” — entre eles, falta de tempo dos pais para levar as crianças às unidades de saúde e desinteresse por parte dos adolescentes. Ela conta, no entanto, que se tornou comum a identificação de informações falsas em redes sociais, como grupos de Facebook e WhatsApp. “São grupos de mães de colégios, grupos de condomínio, grupos que frequentam a mesma igreja. A informação errônea entra na rede e acaba se disseminando”, conta Maia, citando boatos como o da própria relação entre a tríplice viral e o autismo, riscos de vacinas como a da Influenza para a saúde e falta de efetividade da imunização. Tudo falso, reforça a enfermeira. “O Programa Nacional de Imunizações adota vacinas somente após vários testes de qualidade e segurança”, diz. “As vacinas do programa, que o Paraná adota, são extremamente seguras.”
Depois de surtos isolados no Brasil, o movimento migratório da Venezuela, que enfrenta um surto desde 2017, contribuiu para que o vírus se propagasse e provocasse surtos no Amazonas, Roraima e outros nove Estados. O informe de 24 de janeiro do Ministério da Saúde registrava 10.302 casos no Brasil.


