Daniela Falcão
Agência Estado
De Brasília
A imagem de que os adolescentes que vivem nas ruas são assassinos potenciais não corresponde à realidade constatada em pesquisa feita em centros de internação de menores infratores de 23 Estados brasileiros pelo Unicef. Dos 1.194 adolescentes internados por terem cometido delito contra a vida ou contra a integridade pessoal, apenas 4% moravam nas ruas. A maioria vivia em moradia de classe baixa (52%).
Para Mário Volpi, oficial de políticas públicas do Unicef, os dados da pesquisa desmontam o mito da periculosidade dos meninos de rua. ‘‘Ao contrário do que muita gente acredita, os meninos de rua não andam sempre com arma na cintura, até porque eles não têm onde guardá-la’’, diz. Os meninos que vivem na rua são mais propensos a roubar do que a matar, segundo Volpi, porque cometem o delito por motivos de sobrevivência.
A pesquisa mostra que, antes de ser detida, a maioria dos adolescentes que cometeu delitos contra a vida morava com a mãe, havia abandonado os estudos e vivia com renda familiar mensal de aproximadamente R$ 470. Cerca de 44% contribuíam com o sustento da família. Os trabalhos lícitos mais frequentes eram auxiliar de pedreiro, vendedor de jornais e de picolé. O tráfico de drogas é a atividade ilegal mais frequente dos adolescentes que contribuem com a renda familiar.
Já os adolescentes que estão internados por crime contra o patrimônio têm perfil diferente: vivem em famílias mais pobres (renda mensal de R$ 394), são mais jovens (22% cometeram o delito aos 12 anos) e 20% nunca tiveram instrução formal.
Embora a maioria não trabalhe (70%), o tipo de ocupação mais comum é de lavador de carros, vendedor de balas e de jornal. Volpi considera natural que os adolescentes que cometeram crimes contra o patrimônio sejam mais novos do que os que cometeram homicídio ou latrocínio. ‘‘Os delitos contra a vida geralmente são precedidos por outros mais leves, como furto.’’
Para evitar que o adolescente que furta pela primeira vez acabe cometendo infrações mais graves, Volpi defende a adoção de medidas socioeducativas em regime aberto, como a prestação de serviços à comunidade. ‘‘Se as medidas socioeducativas não forem eficientes, não ajudarem a desenvolver uma alternativa, ele persistirá na prática infracional.’’
Tanto os adolescentes que cometeram crimes violentos quanto os que praticaram furto ou roubo vêm de famílias monoparentais. Ou seja, vivem somente com a mãe ou só com o pai. ‘‘As relações são instáveis. Eles vivem ora com a mãe, ora com o pai, ora com a avó. A mudança constante gera uma ausência de retaguarda afetiva e emocional, ele fica sem ter a quem recorrer.’’ A pesquisa ainda conclui que o excesso de tempo ocioso contribui muito para o aumento da delinquência.

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