Rio, 20 (AE) - A concentração de renda aumentou na cidade de São Paulo e diminuiu no município do Rio de Janeiro nos últimos cinco anos, segundo a última Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) divulgada hoje pelo Centro de Estudos de Preços da Fundação Getúlio Vargas. A sondagem constatou que todas as faixas da população carioca aumentaram os seus rendimentos no período, mas na capital paulista somente os 10% mais ricos tiveram crescimento de renda familiar (de 55,35 para 61,86 salários mínimos). Os outros setores da população paulistana perderam rendimentos, à exceção dos 10% mais pobres, que ficaram em 2,07 salários.
Os novos números causaram uma inversão de posição entre as duas principais cidades do País no Índice de Gini, indicador entre zero e 1 internacionalmente usado para medir distribuição de renda. De acordo com esse conceito, quanto o mais próximo do zero é o número, melhor é a distribuição de riqueza; quanto mais perto de 1, mais concentrada é a renda. Em São Paulo, em 1992 e 1993 o índice era 0,495, tendo passado para 0,513 em 1997 e 1998; no Rio, de 0,504 há cinco anos, o número passou para 0 491. Também diminuiu, em São Paulo, a participação percentual dos extratos mais pobres da população na renda.
Mudanças - A POF constatou ainda que paulistanos e cariocas gastam menos para se alimentar e mais para morar que há cinco anos. O grupo alimentação, que tinha peso de 31,7% nos orçamentos das famílias em janeiro de 1994, passou a 26,4% no início de 1999. Já a habitação (com todas as despesas de moradia), que vinha com 24,2% dos gastos, passou para 31,1%. Foi forte o aumento dos aluguéis (de 3,7% para 7,5% dos orçamentos) e dos gastos com serviços públicos (luz, gás, telefone), de 4,7% para 6,2%. "Em função da privatização, houve reajuste nas tarifas", disse Paulo Sidney de Melo Cota, diretor do CEP/FGV.
Também cresceram os gastos com saúde e cuidados pessoais (de 10,8% para 12,2%), com destaques para médicos/dentistas/outros, que subiram sua participação nos gastos familiares de 4,3% para 5,7%, e com planos e seguros de saúde (2,9% para 3,8%). Curiosamente, os gastos com medicamentos diminuíram um pouco: de 2,5% para 2,4%. Houve queda também nos gastos com vestuário (de 6,7% para 5,7%) e com educação, que em janeiro de 1994 consumia 6% do orçamento e, em janeiro de 1999, baixou para 4,9%).
"As escolas realmente subiram suas mensalidade acima da média, mas a elasticidade (oferta de produtos e serviços) nesse setor é forte", explicou Cota, que considera que, em geral, nas duas cidades, os mais pobres melhoraram de vida, pois a alimentação tem mais peso em seus orçamentos familiares, mas a classe média foi prejudicada. "Houve um êxodo muito grande para a escola pública." Também houve famílias que trocaram as escolas mais caras pelas mais baratas.
A pesquisa detectou ainda mudanças nos padrões de consumo da população nos últimos cinco anos, período de estabilidade de preços do Plano Real. Passaram a ter destaque nos gastos familiares no Rio e em São Paulo a compra de alimentos prontos (bolos, molhos e temperos, polpa de frutas, comida congelada), de utilidades domésticas (cafeteiras elétricas, lavadoras multiuso a vapor, multiprocessadores de alimentos, computadores e periféricos), de medicamentos (anticoncepcionais, produtos dermatológicos, vitaminas, homeopáticos). Também ganharam destaque a compra de carro zero quilômetro (1,1% dos gastos), mensalidades para Internet (0,12%)
para TV por assinatura (0,42%) e pagamento de multas de trânsito (0,25%), resultado do novo Código de Trânsito Brasileiro.
Metodologia -- A cada cinco anos, o CEP/FGV atualiza a POF, para apurar quais são os hábitos de consumo que embasarão a apuração da inflação. Nas duas cidades, foram consultadas cerca de 3,5 mil famílias, em quatro "levas" de pesquisa ao longo de quatro estações (por causa da sazonalidade de hábitos), nas quais foram apuradas as quantidades dos produtos mais consumidos pelas famílias, escolhidas por amostragem. Sobre essas quantidades, são aplicados mensalmente os preços e apuradas as variações, que entram na medição da inflação. A última POF foi feita no segundo semestre de 1997 e no primeiro de 1998, e os novos quantitativos que apurou foram usados pela primeira vez em janeiro de 1999, mês a que se referem seus números mais recentes.

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