Pesquisa desvenda mecanismo de busca mental
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de abril de 2005
Cristina Amorim<br>Agência Estado 
São Paulo - Imagine que você está na praia e resolve mergulhar. Na volta, olha para a frente e o que vê é uma paisagem formada por dezenas de pessoas, tendas e guarda-sóis. Você lembra que seu guarda-sol é vermelho e, de repente, parece que tudo o que é vermelho se destaca na confusão, e você pode então identificar qual é seu destino.
Esse mecanismo de busca mental, que acontece automaticamente, foi desvendado por uma equipe de neurocientistas americanos e publicado na edição desta semana da revista Science.
Estudos anteriores mostram que há duas formas de busca visual. Uma é a serial. Funciona assim: você olha objeto por objeto, separadamente, e compara com as características que busca, até achar seu alvo. Outra estratégia é a paralela: seu cérebro processa tudo ao mesmo tempo e seleciona o objeto que se casa da melhor forma possível com o que busca.
O que a equipe dos EUA descobriu agora é que as duas estratégias se fundem na procura visual. Em testes com macacos, os pesquisadores descobriram que um certo neurônio encontrado na área do córtex visual (região do cérebro que processa as imagens), chamado V4, é especialmente sensível durante a tarefa.
Quando o macaco movia seus olhos pela imagem, a resposta ao estímulo era diferente: se havia interesse em vermelho, então o neurônio respondia de forma mais vigorosa - não importava qual era o formato. Essa é a estratégia paralela. O segundo passo era o animal buscar, entre cada um dos vermelhos, o formato que precisava - é a estratégia serial.
''O uso de primatas não-humanos para entender o cérebro humano é justificado pelas similaridades em ambos os comportamentos e organizações e funções cerebrais'', disse a neurocientista Narcisse Bichot, do Laboratório de Neuropsicologia do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA. ''Claro que o cenário ideal seria trabalhar com cérebro humano diretamente, mas a tecnologia disponível não nos permite estudá-lo de uma forma não-invasiva.''
Mais do que uma curiosidade ou a resposta para o sucesso da série de livros como Onde está Wally?, em que o leitor precisa achar o rosto do personagem em uma multidão de caracteres, o cientista Jeremy M. Wolfe, da Escola Médica de Harvard, que não participou da pesquisa, destaca em um artigo na mesma Science que a compreensão dos sistemas biológicos pode ajudar a aprimorar sistemas de busca artificiais, como a mamografia.
''A busca visual é uma tarefa que cada um de nós executa milhares de vezes por dia, desde ao procurar uma xícara de café até encontrar um rosto na multidão'', escreve Wolfe. ''Esperamos o desenvolvimento de novas maneiras de melhorar a performance humana em tais tarefas.''


